Na edição Runners Brasil de maio de 2025, já tínhamos escrito sobre o importante papel da saliva na proteção dos dentes e mucosa oral. No entanto, para nós corredores existem situações específicas que ocorrem antes, durante e depois da corrida, bem como a possível presença de doenças de base, e uso de medicamentos que podem interferir e alterar o fluxo salivar.
Em algumas condições a produção da saliva pode ser alterada de forma passageira ou mais definitiva. Durante a corrida ocorre simultaneamente a respiração nasal e bucal, sendo que essa diminuição transitória da saliva não tem impacto na saúde bucal. As possíveis alterações do fluxo salivar durante a corrida são compensadas pela correta reposição de eletrólitos, antes, durante, e depois da realização do exercício de forma regular e prevista. No entanto, existem situações merecem ser aprofundadas e diferenciadas, e que não são diminuições transitórias do fluxo salivar.
Assim, corredores que fazem o uso contínuo de medicamentos como antidepressivos, ansiolíticos, diuréticos, anti-histamínicos e anti-hipertensivos podem apresentar uma diminuição do fluxo salivar considerado normal. Uma atenção especial às doenças autoimunes, como a síndrome de Sjögren, artrite reumatóide, diabetes e sacordoise, bem como distúrbios de alimentação como a bulimia, anorexia nervosa, desnutrição e desidratação devem ser incluídos na lista de problemas que também podem ter alterado o fluxo e a qualidade salivar. Alterações hormonais durante menopausa também podem causar hiposalivação. Isso tudo sem mencionar os indivíduos que precisaram de radioterapia na região da cabeça e pescoço, cujo déficit salivar é imenso. Uma avaliação do possível impacto dessas medicações na qualidade e volume da saliva se torna imprescindível para diferenciarmos causa e efeito. Na consulta com o seu Dentista é possível identificar essas alterações e os possíveis tratamentos e cuidados a serem instituídos para manter a saúde bucal.
Para identificarmos essa possível diminuição do fluxo salivar é salutar conhecermos alguns sinais e sintomas de uma boca seca: Sensação de que a saliva está mais espessa; Dificuldade de engolir; dificuldade em mastigar e falar; sensação de ardor ou queimação na língua; sensação de garganta seca; lábios rachados ou ressecados; alterações de paladar; gosto metálico ou amargo na boca; mau hálito; cárie dental com frequência; presença de saburra (placa bacteriana que se forma na parte posterior da língua).
Existe também os indivíduos que chamamos de respirador bucal, que respiram predominantemente pela boca, ao invés do nariz, o que resulta numa face mais alongada e estreita, nariz pequeno, lábios ressecados e sem tonicidade (muito comum ficarem entreabertos), olheiras profundas, palato alto (céu da boca) e maloclusão dentária. Nessa condição ocorre uma má oxigenação, possíveis roncos, sono agitado e cansaço. Também estão sujeitos a uma maior incidência de infecções das vias aéreas, tais como sinusites, rinites e bronquites), pois o ar não é filtrado, aquecido e umidificado pelo nariz.
Portanto, a saliva possui funções importantes tanto para dentes quanto para a mucosa oral. Dentre elas temos as funções de lavagem da boca, solubilização de substâncias que dão sabor aos alimentos, formação do bolo alimentar, limpeza microbiana dos alimentos, lubrificação dos tecidos moles orais, facilitação na deglutição e fonação. Por sua capacidade de neutralização dos ácidos, a saliva protege os dentes contra perda mineral oriunda de atividade cariosa ou de erosão ácida, bem como provê manutenção do cálcio e fosfato na superfície do esmalte dental.
A boca seca, como chamamos na linguagem comum, ou seja, quando ocorre uma diminuição transitória do fluxo salivar normal é algo que pode ocorrer durante a corrida. Correr num clima mais quente e úmido aumenta a desidratação e maiores cuidados com a reposição de agua e eletrólitos devem ser planejados e executados.
Já nos casos específicos de corredores que são respiradores bucais, ou tem doenças sistêmicas, e naqueles que fazem o uso continuo de medicações que podem alterar o fluxo salivar de forma mais permanente, devem ser devidamente avaliados pelo dentista, médico e treinador. Nessas situações, diversos problemas dentários podem ser potencializados pela diminuição não transitória do fluxo salivar. Ao associarmos nessas situações a respiração bucal e nasal durante a corrida, alguma desidratação, e o consumo aumentado de géis e barras de carboidratos e isotônicos, podemos aumentar o risco a cárie, erosão dentária, desconforto na fonética e deglutição, com resultados negativos sobre a saúde dentária. De qualquer forma, corredor, existem tratamentos e abordagens embasadas na ciência para que na identificação dessas características em cada caso, possamos manter a saúde bucal e continuarmos com a nossa corrida de cada dia.

