Foi correndo que Simoniely encontrou um lugar só seu. A professora, de Maringá (PR), começou há dez anos buscando uma atividade de lazer que a tirasse do ciclo de casa, trabalho e estudos, e logo descobriu uma paixão. Há quatro anos encarou a primeira maratona e, na estreia, fez um sub-3h e venceu uma das provas mais duras do Brasil, a Maratona Internacional de Foz do Iguaçu (PR). Hoje é tricampeã dos 42 km. Mas a mesma dedicação que a levou ao pódio virou também uma cobrança cada vez maior por desempenho e pelo “corpo ideal”. Foi essa exigência consigo mesma que a fez ignorar os sinais do próprio corpo, até que eles cobraram um preço alto: veio o diagnóstico de RED-S (Deficiência Energética Relativa no Esporte), síndrome que se instala quando o atleta consome menos energia do que o corpo gasta entre os treinos e as funções básicas do organismo. Com isso, a corredora paranaense de 34 anos precisou reaprender a equilibrar corpo e mente para dar conta da rotina e dos treinos intensos, sem se machucar no caminho. Em entrevista à Runners Brasil, a corredora, conhecida no Instagram pelo perfil @diario.de.corredora, fala sobre respeitar o corpo, conciliar o tempo de construção até cada objetivo e entender que, às vezes, saber parar é o que garante a longevidade na corrida.
Sabine Weiler: Você começou a correr há 10 anos, quando também já era professora. Foi uma escolha ou a corrida que “te encontrou”?
Simoniely Serathiuk: Quando eu me formei e comecei a trabalhar, eu não gostava que minha vida fosse apenas trabalho, casa, família, aquele enredo tão tradicional. Queria ter algo para me divertir e sentia necessidade de cuidar mais da minha saúde, porque sempre fui atleta e, desde que entrei na universidade e comecei a trabalhar, o meu corpo acabava cansado, letárgico, pesado. Com isso, comecei a procurar algum esporte para fazer. Quando eu era menina, gostava muito de jogar vôlei. Tentei jogar vôlei, mas, na vida adulta, acontecem tantos imprevistos que era muito difícil fazer time; e não era um jogo mais competitivo, o que frustrava bastante. Por isso eu desisti e fui migrando aos poucos para a corrida. Comecei a correr porque tinha um grupo de corrida perto de onde eu morava e era mais prático, porque eu já fazia algumas caminhadas. Logo no primeiro treino, eu senti aquela energia, aquele “bichinho da corrida”. Essa energia, essa oscilação de esforço, me acalmava, me alegrava, me motivava, me fazia sentir viva. E assim começou a minha relação com a corrida, com certa constância e com direcionamento profissional. Mas eu não fortalecia nada e sentia muita incompatibilidade entre querer correr mais e o corpo não estar preparado para isso. Então, tive que ir para o fortalecimento para manter a corrida sempre comigo.
Sabine Weiler: Existe um momento específico em que você percebeu que correr tinha deixado de ser exercício e virado algo maior na sua vida?
Simoniely Serathiuk: Desde o começo, eu senti que gostaria de ter a corrida na minha vida. Na época, o meu namorado, que é o atual esposo, também gostava de correr, então os programas foram se envolvendo com a corrida. É lógico que eu tive essa parte dos benefícios físicos, mas o principal foi a questão de ter um lugar só para mim, onde eu sentia que os meus esforços voltavam só para mim. Então, desde o começo, eu vi que seria algo maior, só que não tinha um tempo muito disponível, por causa do trabalho, pós-graduação, mestrado, e depois fiz outras graduações. Eu levava 10 horas para ir e voltar do serviço e dos estudos. Então, a corrida ficava naqueles 40 minutos que eu conseguia colocar diariamente. Mas eu já queria que fosse mais, então fiz fortalecimento, um treinamento mais direcionado, seguindo de uma forma bem progressiva: 5 km, 10 km. Com um ano e pouco cheguei nos 21 km e não tinha plano nenhum de 42 km. Eu já via que era uma coisa muito grande. Então, desde o começo, a corrida teve um lugar especial, mas muito pequeno, até depois da pandemia, até eu terminar o meu mestrado.
Sabine Weiler: Como foi a sua trajetória até a sua primeira maratona?
Simoniely Serathiuk: Para chegar na primeira maratona, levaram seis anos. Eu sempre contei com acompanhamento de treinadores, então compreendi o tamanho da missão para completar uma maratona e como um ciclo cobrava e era muito difícil encaixar com a rotina que eu tinha. Com isso, levou muito tempo para eu tomar a decisão, porque não existem certezas, ainda mais uma maratona, que considero um ato de fé. Você se dedica muito, para quem sabe conseguir a medalha. Então é pouco sobre a medalha, é muito sobre o que você está querendo se envolver, o que você está querendo descobrir de si mesmo para fazer uma maratona. Quando decidi, escolhi a mais significativa para mim, que era a Maratona Internacional de Foz do Iguaçu (PR), aquela em que eu via meus amigos treinando e falando da dificuldade, de quão incrível era terminar. Aí eu fiz o meu treinamento, deu tudo certo e eu sabia que estava bem-preparada. Eu tinha incerteza, mas era muita curiosidade de ver como eu ia me portar. Mas é lógico que eu jamais imaginei que ia terminar a minha primeira maratona, e a primeira prova, largando como elite, como campeã. Isso foi muito grandioso e mostrou esse poder de a gente, às vezes, querer parar de controlar tudo, fazer a nossa parte, confiar, ter fé de que grandes coisas podem acontecer conosco. Na primeira maratona, eu pensava: “Por que não eu? Por que eu não posso ganhar?” Quando eu ganhei: “Por que eu estou achando estranho que ganhei? Eu mereço. Treinei.” Todo mundo que estava lá também treinou, mas eu mereci. Anos e anos de cuidado, de progressão de carga e de desafios condizentes com a minha capacidade me trouxeram a confiança necessária para correr muito bem a minha primeira maratona.
Sabine Weiler: Você trabalha 40 horas semanais, é professora mestra em Educação. Como você organiza e concilia com os treinos?
Simoniely Serathiuk: Realmente é muito desafiador. Tempo de trabalho de professora, a produção de conteúdo no Instagram, tempo de deslocamento. A rotina de treinamento na corrida é muito mais alinhada à busca por performance, então isso exige muito. O que eu tento fazer é considerar todas as minhas áreas como se fossem um trabalho. A corrida é o meu lazer, apesar do nível de exigência que tenho nela hoje. Mas é inegociável, assim como o trabalho. Depois da pandemia, quando terminei os meus objetivos de estudo, sobrou um pouquinho mais de tempo e comecei a me reorganizar para o treinamento de longas distâncias. Então, passei a treinar de uma hora e meia a duas horas antes de ir trabalhar. Depois do trabalho, eu me dedico às redes sociais. Eu consigo me organizar porque não tenho filhos, o que mudaria a minha percepção de tempo. Mas ainda digo que não consigo fazer um treinamento perfeito. Eu tenho que considerar como é a minha rotina na escola, que sempre é diferente, para sentir o quanto de energia posso gastar no treino, para não faltar energia no trabalho.
Sabine Weiler: Você iniciou na corrida em uma época que não se falava em “Corrida é moda” e, com isso, aprendeu a respeitar todo o processo até chegar nas longas distâncias. Como você conversa com o seu público sobre essa questão?
Simoniely Serathiuk: Eu sempre procurei me conectar com mulheres, então via pouquíssimas visando longas distâncias. Encaixar 10 km já era muita coisa, então parecia que era muito difícil para as mulheres conseguirem treinar para longa distância ou para performance. Ainda não havia tantas mulheres treinando e postando sobre isso. Então, para mim, era muito grandioso fazer 21 km, fazer 42 km. Eu não via praticamente atletas fazendo dois, três treinos no dia. A principal referência era o grupo de corrida, e a ideia de progressão de provas até chegar na meia maratona e na maratona era bem consolidada. Não é que todo mundo segue, mas parecia que você não estava atrasado. Eu não me sentia atrasada. Fui desenvolvendo as habilidades físicas, mentais e emocionais para me sentir capaz de dar os próximos passos. Isso ia me dando confiança, porque, às vezes, o que acontece é uma pessoa ficar exigindo um tanto do corpo desde o começo e não conseguir se sentir confiante. Machuca a mente, o emocional e, muitas vezes, tira o brilho da corrida. É justamente o que eu tento explicar. Tudo bem querer mais, só que o treinamento para corrida exige determinadas competências, que vão ser alcançadas de forma natural se a progressão das distâncias for respeitada. As pessoas, muitas vezes, acham que é só querer, mas na corrida não é só querer. A maioria de nós tem os seus trabalhos, suas rotinas. Se exigir, dar passos grandes demais, vai desmotivar e machucar. Então, tentar achar esse equilíbrio é muito desafiador, principalmente para quem busca performance, mas não tem muita escolha, porque uma hora o preço cobra.
Sabine Weiler: No seu Instagram você fala muito sobre “Dar ao corpo a energia que ele precisa é também escolher continuar sonhando, correndo, trabalhando, cuidando, vivendo de verdade.” Quando você descobriu isso?
Simoniely Serathiuk: É todo um processo de redescoberta, porque está muito vinculado à questão do RED-S (Deficiência Energética Relativa no Esporte). Entrando no mundo da alta performance, comecei a querer estudar mais e entender como eu poderia correr mais rápido, e se fala muito sobre perder peso, ser uma pessoa mais leve possível. Só que esse pensamento a gente precisa questionar. Quando eu corria 5, 10, 21 km, eu não me importava com o meu peso. Mas quando migrei para a maratona, essa foi uma questão que comecei a levar em consideração. Aumentaram muito os treinos, aumentou muito o estresse, mas não aumentou muito a comida. Isso mais por falha minha, que ficava controlando. Por um tempo, até que funcionou: fiquei muito magra, correndo muito rápido, me sentindo forte. Mas chegou um momento em que o meu corpo só estava regredindo, não conseguia mais evoluir, e eu estava adoecendo muito. Eu vivia exausta, cansada, e a memória estava péssima. E, por mais que eu saiba que as longas distâncias cobram o seu preço, não é para você andar tão exausta que não tenha vontade para nada. Isso estava muito relacionado à privação de alimentos que eu estava me colocando. Então, precisei aceitar que existe, sim, a questão do menor peso, mas aquele que o nosso corpo gerencia com saúde. Comecei a trazer um pouco esse pensamento: não é só você fazer todos os esforços e ignorar os sinais do seu corpo. Precisa dar a ele toda a energia necessária, mesmo que o abdômen definido não esteja mais, porque tem que saber fazer escolhas. Você já está vivendo um estresse muito grande no treinamento da maratona. Ficar estressando o corpo ainda mais, sem alimentação, não é certo, é uma autoagressão. Então, tento trazer esse pensamento agora.
Sabine Weiler: Conviver com o Hashimoto te obrigou a desenvolver uma escuta muito mais apurada do seu próprio corpo. O que essa condição te ensinou sobre os seus limites e como isso mudou a sua relação com a corrida e com você mesma?
Simoniely Serathiuk: Eu já tinha, há bastante tempo, hipotireoidismo. Já estava com 23 anos e os exames muito alterados. Então, ele é a raiz pela qual eu comecei a me cuidar. Mas, com o tempo, fui entendendo que o meu corpo sofre muito mais para se recuperar e conseguir performar. Então, eu precisava cuidar muito da alimentação, com a qualidade dos alimentos, porque o corpo sofre para digeri-los, e com a questão do sono. Quando eu tentei acelerar — que é só você querer, dormir menos e fazer mais — sempre estafava. Eu até tentei fazer isso e acumulei muito. Não conseguia nem pensar direito, não tinha energia para nada. Tive alterações no ciclo menstrual e tudo. Então, vi que não era esse o caminho. Eu precisava dormir oito, nove horas por dia, porque sem dormir direito eu não tenho condições nem de existir direito. E fui mudando a minha alimentação para isso, ajustando bastante a restrição e o excesso que eu tinha antes. Mas é lógico que tem momentos que desequilibra.
Sabine Weiler: O diagnóstico de RED-S foi também um momento de redescoberta, sobre cuidar de si. O que essa experiência te ensinou sobre o equilíbrio entre performance e bem-estar?
Simoniely Serathiuk: Sobre a questão do RED-S, eu já tinha ouvido falar, mas parecia que não era para mim. Como a interrupção total da menstruação aconteceu junto com o falecimento da minha mãe, eu imaginava que era mais uma questão de trauma emocional. Eu também sempre comi pelo menos mais que duas mil calorias, então não imaginava que isso pudesse estar acontecendo comigo. Eu só fui aceitar quando realmente já não conseguia mais me recuperar adequadamente dos treinos. Até que assisti a uma live de uma doutora no assunto e comecei a entender que eu tentava fazer tudo, ter um corpinho super seco, tentando correr uma maratona, exigindo demais dele e sem comer o suficiente. Eu trocava os alimentos indicados no plano por alimentos menos calóricos, e as pessoas elogiavam muito um corpo super seco. Então, eu estava percebendo que queria tudo, mas não era possível dentro da fisiologia, da lógica do corpo. Fiquei com muita culpa, muita vergonha, por saber que já tinha prejudicado o meu corpo. Recebi ajuda e foi difícil mudar, porque tive que comer mais, engordar, e não saber quanto exatamente para conseguir, pelo menos, voltar ao principal marcador, que é a menstruação. No início, parei de correr umas duas, três semanas, fazia caminhadas. Depois voltei correndo muito pouco. Foi desafiador me ver além da corrida, porque me liberou para pensar sobre mim, para analisar as coisas que estavam acontecendo. Acabou sendo uma transformação muito grande. Levei muito tempo para entender que o tratamento do RED-S é justamente achar o equilíbrio todos os dias. Quando comecei a sentir que o meu coração estava voltando a bater do jeito normal, que eu não estava mais tendo crise de ansiedade, estava dormindo bem, meu corpo muito melhor, entendi que é o caminho. Não adianta a gente brigar contra a fisiologia, não adianta brigar com o corpo, com as nossas condições reais, e tentar se encaixar de uma forma equilibrada em tudo. Não dá para ter tudo, mas, sabendo escolher e colocando a saúde em primeiro lugar, aos poucos o corpo vai respondendo.
Sabine Weiler: Essa parada na corrida e a volta aos poucos deve ter sido um dos períodos mais desafiadores para você, não só fisicamente, mas mentalmente. O que esse período te mostrou?
Simoniely Serathiuk: O grande desafio é que, muitas vezes, a corrida sai do lugar de uma atividade física para a gente descontar tudo, distrair, virar algo que nos tira de desconfortos mentais e emocionais, que compensa excessos alimentares. Há toda uma razão de questões psicológicas que nos levam a correr demais. E é muito difícil lidar com isso, porque daí você não tem aquela muleta, aquele remédio que você tinha antes, para achar, de fato, qual é o real lugar da corrida na minha vida. Como eu me vejo na corrida para além da performance, para além dos pódios. Eu gosto muito de correr forte, então fui percebendo que precisava colocar a corrida no lugar de treino, de exercício físico, de um conforto emocional, mas não como a principal coisa que me acalmava na vida. Então, caminhei, fazia fortalecimento, ioga, tricô, pintei. Continuo passando pelo desconforto de tentar me reencontrar na corrida, na vida, e ter mais propósito.
Sabine Weiler: A corrida te ensinou que cuidar de si pode significar parar. Como você chegou a essa sabedoria?
Simoniely Serathiuk: A corrida, muitas vezes, trabalha com o nosso corpo, e o corpo ninguém engana. Todos os excessos e as falhas vão ser sentidos com mais ou menos tempo. Então, lá no fundo, eu sabia que poderia realmente ficar sem correr, que poderia me machucar de tal modo que nunca mais voltasse a correr do jeito que eu gosto, ou que as alterações no meu corpo fossem tão significativas que ele não pudesse mais voltar a ter a mesma potência. É um ensinamento de que o nosso corpo não é ilimitado, a nossa energia não é ilimitada. Temos limites, sim, seja pela questão fisiológica, seja pela questão da nossa capacidade, ou pela questão da rotina, das condições do momento. Então, quando você entende que, às vezes, precisa diminuir muito ou quem sabe até parar, para não parar totalmente, é bom ter esse entendimento de que a gente não vive sempre na alta performance, que não estamos sempre em constante evolução, que as coisas são cíclicas e precisam ser assim, e que eu preciso respeitar um pouquinho mais isso. Antes, eu não me dava fases de descanso. Agora entendo que o corpo precisa desses estímulos e que, por mais desconfortável que seja para quem já está muito na rotina, é o que vai trazer longevidade.
Sabine Weiler: Como a corrida te ajuda a ter equilíbrio mental e melhorar a sua qualidade de vida?
Simoniely Serathiuk: A corrida me ajuda a ter um equilíbrio mental maior e a melhorar a minha qualidade de vida, mas, pelo meu perfil de comportamento, é normal que eu me cobre muito, que sempre ache que está pouco e que eu tenha metas muito grandes, que não queira diminuir, não queira errar, não queira fraquejar. Esse é um comportamento complicado para quem está querendo performance, porque, ao mesmo tempo que ajuda na resiliência e em superar os desconfortos, às vezes nos faz ignorar desconfortos. Então, na verdade, eu preciso encontrar o equilíbrio de fazer mais leve, de levar mais em consideração o meu corpo, de não achar que dou conta de tudo, de ser mais gentil. Esse é um caminho que estou seguindo: exigindo, sim, do meu corpo, mas dando a ele essa energia necessária. E isso exige muita confiança em mim, de que vou dar conta de fazer as coisas quando for necessário, que eu não preciso ficar me provando a toda hora. Acho que é uma nova jornada de ter mais clareza, de entender mais o meu valor e ser mais gentil.
Sabine Weiler: A ansiedade pré-prova aparece como tema no seu perfil. Como você lida com ela? Ela já te impediu de performar como queria?
Simoniely Serathiuk: Eu falo bastante de ansiedade e tento dar algumas dicas, mas, na verdade, isso é construído ao longo do tempo, principalmente vivendo o treinamento, porque é no treinamento que nós vamos sendo expostos aos sentimentos e adquirindo um arsenal para dialogar com eles. Quando temos alguma meta, o treinamento certinho, o planejamento é o que vai ajudar a termos confiança de que somos capazes de cumprir aquilo que é projetado. Mas, como eu sempre falo, as pessoas levam o que elas são, o que estão sentindo, as formas de ver e entender o mundo para o esporte. Não tem como você ser um corredor totalmente desvinculado da questão psicológica, dos receios, dos traumas. Então, eu tento sempre trazer ideias ou sugestões de a gente conseguir manejar essa ansiedade, porque ela vai existir, mesmo a gente sabendo que está bem-preparado. É normal se sentir ansioso, e nós precisamos parar de fugir dos sentimentos. Hoje eu consigo entender que a ansiedade é grande e que é normal. Faço os meus esquemas para controlar o que é possível. Mas, acima de tudo, já vivi o suficiente para entender que só de estar numa prova de corrida em condições de largar bem já é incrível, já é algo a ser muito comemorado, porque é muito difícil. Muita coisa pode acontecer. Isso me ajuda a ver a ansiedade e a incerteza de uma forma um pouco mais curiosa e grata. Mas, sim, antes eu passava muito mal, ficava muito nervosa, não conseguia dormir, comer nem parar. As coisas que eu falo para não fazer hoje, eu já fiz, e aprendi que acabava perdendo uma boa parte do treinamento para a prova por toda essa ansiedade. Ganhando confiança em mim e vivendo as experiências, hoje eu fico nervosa, fico ansiosa, mas, ao mesmo tempo, consigo fazer o que precisa ser feito e entender que a corrida é só o grande dia, é só o momento de você brilhar, porque você já conseguiu o que precisava para ir bem.
Sabine Weiler: Você é tricampeã consecutiva da Maratona Internacional de Foz do Iguaçu — uma das mais difíceis do Brasil —, centenas de pódios, sub-3h na maratona. Esses números significam o quê para você?
Simoniely Serathiuk: Sim, eu tenho títulos na corrida que nem imaginava que fosse conseguir, e eles representam para mim o sentimento de que eu mereço. Eles são frutos de um processo muito maior, que é gostar demais do treinamento. Eu amo o treinamento. Se eu pudesse mesmo, tivesse condições — tanto fisiológicas, um potencial na corrida muito grande, uma outra estrutura de vida —, eu adoraria viver somente como atleta, porque gosto muito da filosofia do treinamento duro, de variar, de sentir os efeitos do treinamento. Então, só consegui ganhar porque eu amo treinar. Amo os títulos, e agradeço por eles, mas o processo é a parte que mais me transforma, que mais me ensina. É lógico que quero continuar figurando bem no cenário do atletismo nacional. É importante para mim, que não tenho grandes patrocinadores. O dinheiro que recebo nas provas acaba me ajudando na qualidade do meu treinamento, mas qualquer conquista, acima de tudo, mostra o poder de acreditar, de fazer a minha parte, e traz essa alegria de poder ter esse treinamento no meu dia a dia já há tanto tempo.
Sabine Weiler: Depois de tudo que a corrida já te deu (títulos, aprendizados, superações), o que ainda te move? O que você busca agora que vai além de tempo e performance?
Simoniely Serathiuk: Eu vejo os títulos como importantes, mas entendo eles como resultado do meu gosto por treinar. Quero continuar correndo provas, quero fazer maratonas, quero seguir performando, mas, neste momento, estou mais preocupada em sentir que o meu corpo está equilibrado de volta, que de fato saí desse processo de deficiência energética e estou encontrando um real equilíbrio que me permita correr bem forte, que é uma das coisas que eu mais gosto — me sinto muito viva desse jeito. Mas sem comprometer a minha saúde, sem terminar os dias arrastando os pés, sem perder o limiar do saudável. Já faz uns 10 meses de processo, e tem horas que me sinto tão bem, tem horas que adoeço um pouco. Eu senti que levei o meu corpo ao extremo e, aos poucos, ele está se reestruturando, está se fortalecendo. Por isso não fico pensando muito em grandes provas, em grandes tempos. Quero apenas me manter correndo, voltar a sentir toda aquela potência, poder colocar intensidade de volta no meu treinamento, mas sem jogar de novo para a corrida um peso que não é dela, que é o de resolver as minhas questões. Agora eu quero dar para a corrida, e exigir dela, aquilo que é justo: o treinamento direcionado, os objetivos dentro das pistas. Eu pude clarear os pensamentos, mas não sobrecarregar tanto o meu corpo que ele não consiga mais lidar com as demandas do dia a dia. Quero entrar numa fase de viajar mais, aproveitar mais experiências na corrida, vivê-la na intensidade, na performance, mas vê-la além disso. Enfim, quero uma fase um pouco mais gentil comigo, em que eu encontre esse tom mais equilibrado entre performance, saúde e diversão.

