Ele carrega um sonho que vai muito além de medalhas: fazer o esporte chegar a todos. Lucas Mazzo, 30 anos, conheceu a marcha atlética ainda no Colégio Militar, de forma obrigatória, e jamais imaginou que aquela modalidade, antes vista com resistência, mudaria a sua vida para sempre. A jornada não foi simples. Lucas chegou a desistir do esporte, mesmo sendo o 3º no ranking brasileiro, enfrentou obstáculos, dúvidas e recomeços, até viver a convocação para os Jogos de Tóquio. Nesta entrevista, o atleta olímpico fala sobre a honra de representar o Brasil, a luta diária por apoio à marcha atlética, os erros e aprendizados que transformaram sua carreira e o que os corredores podem aprender com a marcha.
Sabine Weiler: Como a marcha atlética entrou na sua vida e o que te fez acreditar nesse caminho?
Lucas Mazzo: Eu tive o primeiro contato com o esporte em 2006, quando ingressei no colégio militar. Lá, era obrigado a fazer marcha atlética, e tudo que é obrigado é chato (risos). Eu não gostava e ainda era ruim. De lá para cá, mudei minha rotina, comecei a estudar para o vestibular e, no mesmo momento, em 2011, fui convidado a fazer musculação por um amigo, na pista de atletismo de São Caetano do Sul. O único, porém, era que eu precisava fazer um esporte. Escolhi a marcha e aí não parei mais. Depois que eu entendi o que o esporte faz na vida de uma pessoa, comecei a amar e entender ainda mais a minha modalidade.
Sabine: Qual foi o momento mais transformador na sua trajetória pessoal e esportiva?
Lucas: Trajetória pessoal foi no Troféu Brasil de 2016, última vaga para conquistar o índice olímpico. Quem ganhasse estava dentro da Olimpíada do Rio, e eu fui terceiro.Mas, na linha de chegada, estava minha mãe, e ela disse: “Você é meu campeão, e eu acredito em você”. Foi o último abraço que dei na minha hidratadora oficial. O último abraço depois de uma competição foi na minha mãe. E, esportivo, até o momento de hoje, foi minha convocação para Olimpíadas de Tóquio. Eu não estava nem cotado para ir, mas aconteceu um milagre, e aconteceu o que 97% diziam que era impossível.
Sabine: Como a perda de um olho na adolescência, durante um jogo de paintball, impactou sua jornada no esporte?
Lucas: Eu acredito naquela frase: “Você precisa perder para ganhar…”. No meu caso, foi uma das visões, e, se eu não tivesse passado por isso, certamente não teria conhecido o esporte.
Sabine: Você já pensou em desistir? O que te fez continuar?
Lucas: Não só pensei, como desisti. Na pandemia, em 2020, larguei o esporte, comecei a trabalhar com a família, fiz coisas terríveis à minha saúde, comecei a duvidar da minha capacidade, mesmo sendo o 3º do ranking brasileiro. Brigas com a família e relacionamento me fizeram desistir. Mas o que me trouxe de volta foram as pessoas, amigos que acreditaram em mim e me chamaram de volta. Um deles, o ex-marchador Tiago Fonseca que me ligou num domingo à noite, perguntando onde eu estava. Ele estava na frente do meu prédio, me esperando para treinar. Essa foi uma virada de chave absurda na minha vida.
Sabine: Nas Olimpíadas de Tóquio 2020, realizadas em 2021, o que mais te marcou?
Lucas: Estar numa olimpíada é algo inenarrável, mas saber que você representa uma nação é maior ainda. Eu saí de lá pensando: “Se eu vencer, quem mais vence?”. Acredito que ali começou a minha mudança de postura, na questão esportiva e midiática.
Sabine: O que significa representar o Brasil em uma modalidade pouco apoiada?
Lucas: Para ser sincero, poucas modalidades são apoiadas com o devido valor, e pouquíssimos atletas. Hoje, com as redes sociais, isso ficou mais escancarado e, ao mesmo tempo, nos deu mais oportunidades, mas o mundo esportivo do alto rendimento ainda não entendeu direito isso. Poucos atletas se posicionam para atrair não somente seguidores, mas mostrar sua modalidade. Isso falta, e não podemos culpar órgãos, entidades ou cultura se não lutarmos pelo que acreditamos, que é se posicionar.
Sabine: Se pudesse derrubar um mito sobre a marcha atlética, qual seria?
Lucas: Não machuca o quadril nem o joelho (risos). Esse é o maior mito de todos.
Sabine: O que torna a marcha atlética mais desafiadora do que muitos imaginam?
Lucas: Eu poderia ficar falando termos técnicos como força elástica, arbitragem, técnica. Mas o fato é: um marchador gasta quase o dobro de energia para fazer um 10 km em comparação com um corredor. Enquanto, para fazer 1 km, um marchador dá mais ou menos 1.400 passos, um corredor faz 800 passos em média. Não temos tanta força elástica (e nem podemos) como um corredor, temos um trabalho de toda cadeia posterior de pernas, gigantesco, para nos impulsionar com velocidade e potência sempre maiores, por isso o cansaço é sempre absurdo. No final de uma prova longa de marcha, a maioria dos atletas sempre vai ao chão na linha de chegada (risos).
Sabine: O que você faz hoje que te torna um atleta mais inteligente em relação ao passado?
Lucas: Em relação ao esporte, comecei a entender mais a metodologia de treinos, marcadores fisiológicos e, principalmente, a autopercepção de esforço.
Sabine: Que erros do início você não comete mais?
Lucas: Começar treinos muito fortes, deixar de fazer fortalecimento (é chato, mas necessário), alongamentos são necessários e, para mim, o pilar principal é o sono. Dormir bem é o melhor benefício para a performance.
Sabine: Como você equilibra volume de treino, técnica, estratégia e autoconhecimento?
Lucas: Uma periodização específica e focada para uma prova. Crio uma base forte (mais volume, mais hipertrofia e menos intensidade). Sem uma base sólida, você não consegue sustentar o corpo e a performance até sua prova-alvo. A técnica é algo que precisa ser observada constantemente, com treino na esteira, vídeos. É sempre necessário ter uma estratégia, mas ela pode mudar no meio do percurso ou competição, por isso se conhecer e entender você mesmo é a chave para não se frustrar ou se acomodar. E, claro, sempre com um treinador. Sozinho ninguém consegue chegar tão longe.
Sabine: Por que a caminhada pode ser um primeiro passo inteligente para quem está começando?
Lucas: Ela não gera impacto. Ao contrário do que pensam, ela fortalece muito o tibial anterior. A famosa canelite, dificilmente aparece depois de incrementar a caminhada como base aeróbica. E, claro, caminhar com propósito e metodologia é diferente do que um passeio no shopping (risos)
Sabine: O que os corredores podem aprender com a marcha atlética em relação à técnica e postura?
Lucas: Normalmente, marchadores são mais fortes que corredores (nível profissional). Precisamos ter, principalmente, um core bem desenvolvido, glúteos fortes e posteriores fortes, tudo que um corredor precisa, e marchadores também correm. Corredores poderiam marchar, e tenho certeza de que a canelite iria ficar com vergonha de aparecer (risos) – mas, confesso: o começo da marcha é sofrido.
Sabine: Como você enxerga o futuro da marcha atlética no Brasil? Há mais jovens se interessando pelo esporte?
Lucas: Cada ano que passa mais a marcha atlética é reconhecida – pelos resultados e mídia. Muitos jovens e adultos se interessam por fazer a marcha atlética.
Sabine: O que passa na sua cabeça ao treinar sabendo que precisa correr atrás de apoio?
Lucas: Vou ser muito sincero: antes eu ficava muito indignado por ver influenciadores que nem esporte praticavam direito e recebiam patrocínios ou fechavam publicidade com marcas que eu usava para treinar e competir. Hoje eu entendo que, além de atleta, sou uma vitrine para uma marca. O que uma marca ganharia patrocinando um atleta olímpico que não sabe se posicionar na internet ou na mídia? Histórias de superação, de dificuldade, todo brasileiro carrega uma, mas gerar conexão com marca e empatia do público poucos conseguem. Estou dizendo isso sem nenhum patrocínio, mas hoje não existe raiva, existe um “como”. Como consigo atrelar uma marca à minha carreira e gerar conexão? Antes eu esperava muito a pessoa que dizia: “sua história é incrível, vou te apoiar”. Há cerca de três anos mostro o porquê de ela querer me patrocinar.
Sabine: Qual legado você sonha deixar para a marcha atlética no Brasil?
Lucas: Vai muito além de medalhas ou recordes, do que adianta eu ser campeão olímpico, recordista mundial, se isso só irá trazer contratos e benefícios para mim? Claro que as conquistas mostram ainda mais a modalidade, mas e a juventude e as crianças? Meu objetivo como atleta e influenciador do esporte é levar acesso a todos. Eu comecei porque conheci um esporte que eu não gostava e tinha vergonha, mas eu tive acesso a ele. Quantas crianças com inúmeros talentos deixam de ser atletas olímpicos, simplesmente porque não conheciam o seu esporte. Meu legado é dar acesso a todos os esportes, para todas as crianças, aí ela decide o que quer fazer.
Sabine: Qual foi a maior lição que você aprendeu na sua relação de amizade e competição com outros marchadores, como o Caio Bonfim?
Lucas: Amizades abrem portas, amizades no esporte podem direcionar a sua vida, tanto esportiva quanto pessoal. O Caio é um amigo meu, foi um dos poucos que acreditou no meu sonho, me acolheu em sua casa, e assim eu consegui chegar a uma olimpíada. Sem ele, nada disso seria possível.

