O X da Questão

O Peter perfeito

Por que copiar a elite e buscar a corrida “perfeita” pode atrapalhar mais do que ajudar

Por: Darlan Souza Edição 54 - outubro 2025
O Peter perfeito

No universo da corrida, há uma tendência crescente em buscar atalhos, fórmulas prontas e até invencionismos para melhorar desempenho. Muitos corredores — e até treinadores — ainda erram ao periodizar treinos de força e de flexibilidade, confundindo conceitos básicos e, consequentemente, comprometendo resultados. Um dos pontos mais recorrentes é a confusão entre força e hipertrofia. Embora ambas se relacionem, não são sinônimos: força é uma capacidade física fundamental, enquanto hipertrofia é um processo de aumento de massa muscular. Da mesma forma, flexibilidade não é simplesmente alongamento. Alongar é uma técnica, uma ferramenta; flexibilidade é uma valência física que pode ou não ser determinante para o rendimento de um corredor. Nos últimos anos, também ganhou força a discussão sobre a chamada economia de corrida. Porém, poucos compreendem o conceito em profundidade. O simples ato de correr, realizado com volume adequado, progressão correta e intervalos bem planejados entre sessões, já promove adaptações significativas que impactam diretamente a economia do gesto motor de quem está ganhando experiência na atividade. Não se trata apenas de copiar protocolos de elite ou de aplicar exercícios sofisticados sem necessidade. E aqui está o X da Questão: mimetizar treinos da elite para corredores recreacionais. O atleta de elite vive em outra realidade — é jovem, tem genética diversa, rotina, recuperação e experiência na atividade. Já o corredor recreacional comum como eu e você, possui limitações próprias e objetivos distintos. Confundir essas realidades dentro de um mesmo grupo de corrida gera frustrações e, muitas vezes, lesões. Eu costumo inserir no treino de força a flexibilidade, utilizando a máxima capacidade de amplitude e ganhando isso paulatinamente ao longo do tempo, treino de força com flexibilidade com no mínimo um intervalo de 6h entre uma sessão e outra. Assim na hora do treino de corrida, vamos apenas correr e não misturar modalidades e capacidades. Outro ponto essencial que poucos falam: nem sempre os mais flexíveis e mais alinhados são os melhores corredores. A flexibilidade, enquanto capacidade, precisa ser treinada de forma específica, mas isso não significa que maior amplitude de movimento vá, por si só, resultar em melhor desempenho. Em alguns casos, a busca exagerada por flexibilidade pode até prejudicar a economia natural da corrida, rompendo com o padrão motor espontâneo e eficiente que cada corredor desenvolve ao longo dos anos. Muitos na internet tentam vender a ideia de que todos podemos alcançar a chamada “corrida perfeita”, como se fosse possível nos transformarmos no Peter Perfeito dos desenhos animados da Corrida Maluca. Mas a realidade é outra: cada corredor tem sua individualidade, seu jeito de correr e suas limitações. Basta observar jogadores de futebol em campo — nenhum deles corre igual, e isso não os impede de serem atletas de altíssimo nível. Ninguém será o Peter Perfeito e ninguém deveria tentar vender essa ilusão ao corredor recreacional. A prova maior está no etíope Haile Gebrselassie, um dos maiores de todos os tempos, que corria “todo torto”, com movimentos de braço que jamais foram “corrigidos”, e ainda assim foi bicampeão olímpico, tetracampeão mundial dos 10.000m e estabeleceu 27 recordes mundiais entre os 3.000 metros e a maratona. Se até ele, com sua técnica nada “perfeita”, tornou-se uma lenda, o que precisamos respeitar é o gesto motor individual, e não perseguir uma perfeição inexistente. Cada indivíduo corre de um jeito, dentro de sua própria biomecânica, suas limitações e suas forças. Muitos “ajustes” propostos para “corrigir” a corrida acabam por atrapalhar a naturalidade do gesto motor, tornando o movimento artificial e menos eficiente. Basta olhar e ver, quando estou treinando na rua, parques e praças, noto que tem corredores muito melhores que nós, correndo “todo torto” e tudo bem, o corpo se adapta e vai, normal, é uma adaptação natural que o corpo consegue fazer, assim ele vai compensar e poder desenvolver a atividade sem problema algum, que fique claro isso. Poucos falam sobre isso. Além disso, há outro ponto delicado: muitos confundem conceitos, falam sem ter vivido as experiências, tem pouca ou nenhuma base científica e acabam gerando insegurança no corredor do dia a dia. Como já disse Waldemar Guimarães, “querem transformar uma sessão de treino em uma sessão de fisioterapia”, esquecendo que treino é treino, fisioterapia é fisioterapia. Pior ainda, é quando “muitos por aí querendo ensinar os outros, são uns virgens que ouviram falar sobre o KamaSutra (nem leram), e já querem ensinar sexo aos outros”. A metáfora é dura, mas real: existe uma superficialidade perigosa na forma como o treinamento é transmitido, criando mais ruído do que conhecimento verdadeiro. Vamos deixar bem claro: •⁠ ⁠Força não é sinônimo de hipertrofia. •⁠ ⁠Flexibilidade não é igual a alongamento. Ser flexível pode deixar as suas fotos mais bonitas, correr mais “em pé” digamos, mas nem sempre significa correr bem, correr rápido ou se livrar de lesões. •⁠ ⁠Nem todo conceito de economia de corrida é bem compreendido. •⁠ ⁠Copiar a elite não é o caminho para o corredor recreacional. •⁠ ⁠O gesto motor da corrida é individual e precisa ser respeitado. A chave está no equilíbrio: planejar o treino de força, corrida e flexibilidade de acordo com a realidade do corredor, seu nível atual e seus objetivos pessoais. Mais do que seguir modismos, é entender que o progresso vem da constância, da individualidade biológica e de um planejamento inteligente. Bons treinos!

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Side view portrait of a fitness woman in earphones
Darlan Souza

Darlan Souza

Profissional de Educação Física (Time Runners)

Profissional de Educação Física