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O corredor que se ouve: equilíbrio emocional como prática, não como meta

Por: Carô Queiroz Edição 62 - junho 2026
O corredor que se ouve: equilíbrio emocional como prática, não como meta

Equilíbrio emocional é um dos termos mais usados e menos compreendidos quando falamos de saúde mental. Não se trata de estar sempre bem, de eliminar emoções difíceis ou de manter uma serenidade que, na prática, não existe para ninguém em 100% do tempo. Na perspectiva das terapias cognitivo-comportamentais (TCC), equilíbrio emocional é uma habilidade, algo que se aprende, se pratica e se desenvolve ao longo do tempo. É a capacidade de perceber, compreender e responder às emoções de uma forma mais adaptativa. E a corrida, quando vivida com consciência, pode ser um dos contextos mais ricos para esse aprendizado.

O que significa regular emoções e por que pode ser difícil de fazer

Robert Leahy, Dennis Tirch e Lisa Napolitano, em seu trabalho sobre regulação emocional dentro da TCC, descrevem emoções como respostas funcionais do organismo, como sinais que carregam informação sobre o que está acontecendo dentro e fora de nós. O problema não é sentir raiva, medo, frustração ou tristeza. O problema aparece quando não sabemos o que fazer com essas experiências e acabamos as evitando, suprimindo ou nos fundindo a elas a ponto de perder perspectiva de ação.

Muitos dos nossos padrões emocionais têm raízes antigas. Reagimos ao presente com ferramentas emocionais formadas no passado, e essa reação é o que aparece de forma automática nas nossas vivências diárias. Logo, o caminho não é controlar emoções, mas aprender a ter flexibilidade psicológica, ou seja, a ser capaz de entrar em contato com experiências internas difíceis sem que elas ditem completamente nossas ações.

Como uma analogia, podemos pensar que o equilíbrio emocional não é ausência de tempestade, mas a capacidade de se manter de pé enquanto ela passa.

A corrida como laboratório de regulação

Há muito se investiga os efeitos do exercício aeróbico sobre a saúde mental. Pesquisas mostram que a corrida regular está associada à redução de sintomas de ansiedade e depressão, à melhora do humor e ao aumento da resiliência ao estresse. Mas há um mecanismo menos discutido, e que talvez seja o mais relevante para quem quer desenvolver equilíbrio emocional: a corrida treina a capacidade de permanecer presente em situações desconfortáveis.

Quando você está no quilômetro 28 de uma prova e as pernas pedem para parar, você aprende que desconforto não é perigo. Que sentir não é o mesmo que ser dominado. Que existe uma diferença entre o sinal (“estou cansado”) e a catástrofe (“não vou conseguir”). Esse aprendizado, repetido treino a treino, não fica confinado à pista. Ele migra para a vida.

O exercício físico moderado e regular é uma das formas mais eficazes de ampliar essa janela, como processo fisiológico real que envolve a regulação do eixo do estresse e o fortalecimento de circuitos pré-frontais do cérebro ligados ao autocontrole.

A percepção dessas sensações permite que o corredor aprenda a monitorar seu estado interno e a diferenciar entre desconforto esperado e sinais de sobrecarga. Esse processo de autopercepção é central para o equilíbrio emocional, pois treina a mente para observar sem reagir impulsivamente. A atenção aos próprios limites físicos funciona como um reflexo da capacidade de observar pensamentos e sentimentos de forma neutra, fortalecendo o autocontrole e a consciência emocional.

Aprender a língua do seu próprio corpo

A habilidade de notar e interpretar sensações corporais, como frequência cardíaca, tensão muscular e profundidade da respiração, está muito relacionada à inteligência emocional, na medida em que quem tem maior consciência corporal tende a reconhecer emoções com mais precisão, o que colabora para tomar decisões mais ajustadas e menos impulsivas.

Cada treino oferece dezenas de oportunidades para praticar essa escuta: meu ritmo está sustentável ou estou forçando além do que posso hoje? Essa dor é sinal de esforço ou de lesão? Estou com fome, frio, tensão no ombro, respiração curta? Com o tempo, quem aprende a ler o próprio corpo na pista aprende também a lê-lo nas demais situações de sua vida.

Esse tipo de exercício é um mindfulness aplicado, que tem como objetivo observar sem julgamento, nomear com precisão e agir com consciência.

Três práticas para levar para o treino

Equilíbrio emocional não se constrói na teoria. Aqui estão sugestões de exercícios para começar a treinar essa habilidade dentro dos próprios treinos:

1. O check-in dos três pontos: antes de sair, se faça três perguntas simples: como está minha cabeça hoje? Como está meu corpo? O que espero deste treino? Não é necessário responder com profundidade, apenas nomear. Você não precisa resolver nada, só precisa notar. A nomeação de estados emocionais permite que o cérebro processe a vivência, transformando sensações físicas confusas em informações compreensíveis. Isso ativa o córtex pré-frontal (área lógica do cérebro) e reduz a intensidade do sistema de alarme emocional.

Carô Queiroz

Carô Queiroz

Psicóloga (Time Runners)

Carô Queiroz é gaúcha, corredora amadora desde 2019 e meia maratonista. É Psicóloga pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG), com expertise nas áreas de orientação de carreira e atendimento clínico. Ajuda profissionais a construírem trajetórias de carreira mais estratégicas e com sentido, além de líderes a trabalharem carreira e performance em suas equipes. Produz conteúdos sobre o assunto nas redes sociais, com o objetivo de desenvolver maior protagonismo de carreira no público que a acompanha e educar sobre como alcançamos maior saúde na nossa relação com o trabalho. É membro da Associação Brasileira de Orientação Profissional e de Carreira (ABRAOPC) e acredita que pensar a carreira é uma questão de saúde mental.