Biomecânica da Corrida

Mudança de Pisada: Quando a Busca pela Eficiência Vira Lesão

Por: Felippe Ribeiro Edição 47 - março 2025
Mudança de Pisada: Quando a Busca pela Eficiência Vira Lesão

RUNNERS tudo bem?

Estamos on, por aqui!

A pauta da revista esse mês será de Histórias frustradas no universo da corrida.

Sejam Bem-vindos a nossa coluna sobre Biomecânica da Corrida!

Se você já passou algum tempo no mundo da corrida, provavelmente ouviu falar sobre os diferentes tipos de pisada: retropé (quando o calcanhar toca o solo primeiro), médio pé e antepé (quando a parte da frente do pé entra em contato com o solo primeiro). Nos últimos anos, a ideia de que correr com a pisada de antepé seria mais eficiente e reduziria lesões se popularizou, impulsionada por estudos sobre corredores descalços,  pelo minimalismo na corrida, um livro best seller e principalmente por um trabalho publicado em uma revista famosa em 2010, por uma pesquisadora super famosa e com o auxilio de um biólogo evolucionista também muito famoso na maior Universidade do Mundo.

Mas será que essa mudança realmente é benéfica para todos?

Senta o Zóio e desce….

Aqui vai um relato de caso, de um paciente real, que me procurou para uma avaliação funcional do corredor e tratamento de uma determinada lesão!

Usarei o nome de José para identificá-lo, Ok?  

José era um corredor amador com bons tempos em meia-maratona e que acreditava que sim, que correr com o Antepé e ou Médiopé seria mais eficiente, melhor e menos lesivo, claro, influenciado por artigos e vídeos do Dr.Google, Gurus e Pseudos especialistas de corrida e que exaltavam a pisada de antepé, e consequentemente, a mudança de pisada dele.

Então ele decidiu mudar sua técnica. 

No início, parecia promissor, segundo o próprio, sentia-se mais ágil, mais inteiro e até mais veloz. Mas, algumas semanas depois, as dores começaram a aparecer. Primeiro na panturrilha, depois no tendão de Aquiles e dores na sola e peito do pé, ignorando os sinais, ele continuou insistindo na adaptação, acreditando que era apenas uma questão de tempo até seu corpo se acostumar. Chegou ao limite de doer para andar e teve que parar e procurar ajuda médica e de um fisioterapeuta.

O resultado? 

Fratura de estresse em dois dos 26 ossos do pé, (segundo metatarso e no navicular) e uma tendinopatia de Tendão de Aquiles persistente, levando a um afastamento forçado dos treinos, por 12 semanas, isso mesmo , 3 meses sem correr! 

Tudo documentado com exames de imagem, e achados trazidos pela ressonância magnética, já que o RX ainda não mostrava alterações claras e importantes. Na clínica, dores difusas na planta do pé ao toque, bem como em peito do pé no lado de dentro do pé e no tendão de Aquiles, somando toda a história coletada e citada acima com mais uma informação adicionada, no final da avaliação,  o uso de tênis de placa de carbono com frequência.

Prato cheio para uma BAD TRIP (Uma Jornada Errada), nosso título da coluna.

E garanto a vocês, o erro do José é mais comum do que parece.  Toda a semana ou quase toda recebo uma Bad Trip parecida com a dele.

Temos que entender que a pisada de antepé exige maior esforço da panturrilha, do tendão de Aquiles e as estruturas do pé, e estas nem sempre estão preparadas para essa sobrecarga repentina, pelo contrário, estamos de tênis, sapatos todo o santo dia, e esses músculos estão cada vez mais fracos! 

Além disso, muitos corredores fazem a mudança sem um período adequado de adaptação ou sem fortalecer os músculos necessários para sustentar a nova biomecânica, e isso segundo alguns estudos deveriam levar de 4-6 meses, e qual corredor quer esperar esse tempo? Ou quer diminuir seu Km para realizar essa adaptação?

Quase nenhum né!

Isso significa que mudar a pisada é sempre ruim?

Não necessariamente. Mas é fundamental entender que a corrida é um sistema complexo, alterar a Biomecânica da corrida, nesse caso da pisada, a sobrecarga não vai desaparecer, não vai sumir na atmosfera, alguém vai receber ela, alguém vai se ferrar nisso. Qualquer alteração precisa ser feita com planejamento, acompanhamento profissional e, acima de tudo, paciência. 

E importante salientar, que não existe evidência concreta e robusta que essa mudança deve ser realizada, pelo contrário, a literatura cientifica sugere que não realizamos a mudança baseado no que temos de conhecimento até o momento.

E não podemos esquecer de mais uma coisinha, de que algo que funciona para um atleta de elite, seu treinador, seu amigo ou seu Guru favorito pode não funcionar para você.

Então vou deixar um recado para você, se é que posso!

“Se você está pensando em mudar sua pisada, quer muito, ou acredita que ela vai trazer benefícios, vá com calma, introduza a nova técnica de forma progressiva, fortaleça sua musculatura de tornozelo, pé e esteja atento aos sinais do seu corpo”

E se você me perguntar se devo mudar, a minha resposta será um SONORO NÃO! 

Afinal, correr bem não é sobre seguir modas, mas sim sobre encontrar o que funciona melhor para você. 

Fico por aqui RUNNERS. 

Até mais… 

Felippe Ribeiro

Felippe Ribeiro

Fisioterapeuta (Time Runners)

Fisioterapeuta