Há 33 anos ela começou a correr. Hoje, continua correndo pelos mesmos motivos: liberdade, pertencimento e sonhos.
Em junho de 2026, ela completa 33 anos de corrida. Trinta e três anos desde que uma menina de cinco anos encontrou, em um projeto social, muito mais do que um esporte. Encontrou pertencimento, encontrou oportunidades e um caminho.
Filha de uma empregada doméstica, criada em uma realidade de dificuldades financeiras, Mih correu desde a infância, passou por situações que poderiam ter limitado seus sonhos e cresceu acreditando que o movimento poderia levá-la mais longe e mais livre.
Dos 50 metros rasos às maratonas. Das pistas escolares às ultramaratonas. Do Cruce de los Andes às grandes provas internacionais. Da menina que corria porque gostava de correr à mulher que hoje inspira milhares de pessoas através do esporte.
Mas talvez a sua maior conquista não esteja nos números e sim na forma como Mih aprendeu a ocupar espaços.
Como mãe dos gêmeos Dom e Gael, encontrou maneiras de continuar treinando quando muitos acreditavam que a maternidade representaria uma pausa. Como atleta, mostrou que a alta performance pode coexistir com a vida real. Como mulher, construiu sua trajetória sem abrir mão da própria verdade.
No mês em que o mundo celebra o orgulho LGBTQIA+, a história de Mih ganha um significado ainda mais profundo. Não porque ela queira ser definida por rótulos, mas porque representa algo poderoso: a liberdade de viver plenamente quem se é.
Em junho celebramos o Mês do Orgulho, uma data que tem como marco histórico a Revolta de Stonewall, ocorrida em 28 de junho de 1969, em Nova York. Mais do que uma celebração, o período convida à reflexão sobre visibilidade, respeito e pertencimento. E poucas histórias traduzem tão bem esses valores quanto a de Mih Cezar.
Ao lado da companheira Marina, dos filhos e dos sonhos que ainda a movem — entre eles, a tão desejada maratona sub-3 em Chicago —, Mih segue correndo.
Correndo por paixão. Correndo por liberdade. Correndo porque, depois de 33 anos, a corrida continua sendo o lugar onde ela encontra a si mesma.
E talvez seja exatamente isso que torna sua história tão especial.
”Quando olho para trás, não vejo apenas quilômetros percorridos. Vejo uma vida inteira transformada pelo esporte.” — Mih Cezar
Uma vida inteira em movimento
RRB: O que sente ao perceber que está completando 33 anos de corrida?
Mih Cezar: Sinto gratidão. A corrida me acompanhou durante praticamente toda a minha vida. Ela esteve lá quando eu era uma menina pobre que corria descalça, quando sonhava sem saber se teria oportunidades, quando me tornei mãe e também agora, como mulher adulta, atleta e criadora de conteúdo. Quando olho para trás, não vejo apenas quilômetros percorridos. Vejo uma vida inteira transformada pelo esporte.
RRB: Você começou num projeto social aos 5 anos. Em que momento percebeu que a corrida não era apenas uma atividade, mas parte da sua identidade?
Mih Cezar: Acho que percebi quando entendi que a corrida não estava apenas mudando meus resultados, ela estava mudando a forma como eu enxergava a mim mesma e o mundo ao meu redor. A corrida me ensinou disciplina, confiança e pertencimento. Foi ali que percebi que ela faria parte de quem eu sou para sempre. Ao longo dos anos vieram as corridas de rua, o atletismo, o triathlon, as ultramaratonas e as grandes maratonas. Mas a essência permaneceu a mesma.
RRB: O que ainda faz você acordar e querer correr?
Mih Cezar: A liberdade. A corrida continua sendo o lugar onde encontro a mim mesma. Não importa quantas responsabilidades eu tenha, quantas preocupações estejam presentes ou quantos desafios apareçam, quando corro, lembro de quem eu sou e de onde eu vim.
Mãe, atleta e sem pedir desculpas
”Sair da pobreza, criar meus filhos com amor, construir minha carreira e continuar correndo depois de tantas décadas é uma conquista muito maior do que qualquer medalha.” — Mih Cezar
Durante muito tempo, a sociedade repetiu a ideia de que a maternidade exigia renúncias, que determinadas conquistas precisavam ser colocadas em espera. Que algumas mulheres precisavam escolher. Mih escolheu outro caminho, escolheu continuar.
Treinando quando dava, correndo quando era possível, adaptando-se sem desistir, e transformando os filhos em parte da jornada.
Quem acompanha sua trajetória já viu inúmeras imagens de Dom e Gael acompanhando a mãe em treinos e provas. Em uma delas, Mih completou uma meia maratona empurrando o carrinho dos filhos e cruzou a linha de chegada em impressionantes 1h53.
RRB: O que seus filhos aprendem ao verem a mãe correndo?
Mih Cezar: Acredito que eles aprendem que vale a pena lutar pelos próprios sonhos. Quero que eles entendam que a disciplina, a dedicação e a coragem podem levar qualquer pessoa muito longe.
RRB: Muitas mulheres sentem culpa ao reservar tempo para si mesmas. Você já sentiu isso?
Mih Cezar: Sim, em alguns momentos, mas também entendi que cuidar de mim faz de mim uma mãe melhor. Quando treino, fico mais forte física e emocionalmente, e isso reflete diretamente na forma como cuido dos meus filhos.
Orgulho de existir
RRB: Qual foi a maior vitória da sua vida que não teve medalha?
Mih Cezar: Ter conseguido transformar a minha história sem esquecer de onde vim. Sair da pobreza, criar meus filhos com amor, construir minha carreira e continuar correndo depois de tantas décadas é uma conquista muito maior do que qualquer medalha.
O esporte sempre foi apresentado como um território de superação. Mas para muitas pessoas, antes da superação existe outro desafio: o de simplesmente ocupar espaços.
Mesmo em um ambiente que celebra diversidade, inclusão e liberdade, ainda existem barreiras invisíveis para muitas mulheres LGBTQIA+.
Mih conhece essas realidades, mas escolheu enfrentá-las da mesma forma que encara uma maratona: um passo de cada vez.
RRB: Como é ocupar espaço no esporte sendo mulher, atleta, mãe e vivendo uma relação com outra mulher?
Mih Cezar: Para mim, ocupar esse espaço é um ato de verdade. Sou mãe do Dom e do Gael, atleta há 33 anos e hoje construo minha vida ao lado da Marina, minha companheira, que me ajuda 100% no esporte, nos meus sonhos e em todos os desafios que escolho enfrentar. Ter alguém que acredita em mim dessa forma faz toda a diferença.
”Mas também é impossível ignorar que ainda existem poucos espaços de representatividade dentro do mercado esportivo.” — Mih Cezar
Quando olhamos para campanhas, patrocínios e embaixadores das grandes marcas, ainda vemos, na maioria das vezes, os mesmos perfis, os mesmos corpos e os mesmos modelos de família. Existem muitas pessoas LGBTQIA+ ocupando o espaço, conquistando resultados e inspirando comunidades, mas ainda somos pouco vistos.
RRB: Ainda faltam referências LGBTQIA+ na corrida?
Mih Cezar: Muito. A corrida é democrática quando estamos na rua, mas quando olhamos para campanhas, patrocínios e oportunidades dentro do mercado esportivo, ainda existe uma distância enorme entre a diversidade que vemos nas ruas e a diversidade que vemos representada. Ainda faltam referências, mas principalmente faltam oportunidades.
RRB: Em algum momento sentiu que precisava provar mais do que os outros?
Mih Cezar: Sim. Primeiro por ser mulher, depois por vir de uma realidade extremamente humilde. Mais tarde por ser mãe, e também por viver uma relação com outra mulher. Em muitos momentos senti que precisava entregar mais para receber o mesmo reconhecimento, mas o tempo me ensinou que eu não preciso provar que mereço estar aqui. Minha história fala por si só.
O esporte muda destinos
”O esporte transformou completamente a minha vida, corri descalça durante muitos anos. E foi através da corrida que surgiram oportunidades que pareciam impossíveis.” — Mih Cezar
Ao falar sobre transformação social, Mih não recorre a teorias, ela fala da própria vida.
RRB: Você acredita que o esporte pode ser uma ferramenta poderosa de transformação social?
Mih Cezar: Eu sou a prova viva disso. O esporte transformou completamente a minha vida. Passei fome, corri descalça durante muitos anos. E foi através da corrida que surgiram oportunidades que pareciam impossíveis. Os corredores do projeto social onde comecei ajudaram a construir, em mutirão, a casa onde minha mãe mora até hoje. Quando olho para essa história, entendo que o esporte é muito mais do que competição. O esporte cria pertencimento, cria oportunidades e muda destinos. Mudou o meu.
A menina que corria descalça
”Sou alguém que ainda se emociona ao lembrar da própria história e que nunca deixou de acreditar no poder transformador do esporte.” — Mih Cezar
Aos 38 anos, Mih segue acumulando sonhos, alguns deles já têm endereço e data: Chicago, sub-3.
Mas, curiosamente, seu maior combustível continua sendo o mesmo daquela menina que começou a correr aos cinco anos.
RRB: O que ainda move você?
Mih Cezar: Os sonhos que ainda não realizei, minha história, as pessoas que se inspiram na minha trajetória. E a certeza de que ainda tenho muitos quilômetros para viver.
RRB: O que é a vida para você?
Mih Cezar: A vida é movimento, é seguir em frente mesmo quando o caminho parece difícil. É amar, aprender, cair, levantar e continuar acreditando.
RRB: E o que espera do futuro?
Mih Cezar: Continuar correndo, ver Dom e Gael crescerem felizes, construir muitas memórias ao lado da Marina, conquistar minha maratona sub-3 em Chicago. E continuar mostrando, através da minha história, que o esporte tem o poder de transformar vidas. Porque um dia ele transformou a minha.
”Que ninguém permita que a sua origem determine o tamanho dos seus sonhos.” — Mih Cezar

