Capa

Mih Cezar: maternidade, maratona e liberdade

Por: Dani Christoffer Edição 62 - junho 2026
Mih Cezar: maternidade, maratona e liberdade

Há 33 anos ela começou a correr. Hoje, continua correndo pelos mesmos motivos: liberdade, pertencimento e sonhos.

Em junho de 2026, ela completa 33 anos de corrida. Trinta e três anos desde que uma menina de cinco anos encontrou, em um projeto social, muito mais do que um esporte. Encontrou pertencimento, encontrou oportunidades e um caminho.

Filha de uma empregada doméstica, criada em uma realidade de dificuldades financeiras, Mih correu desde a infância, passou por situações que poderiam ter limitado seus sonhos e cresceu acreditando que o movimento poderia levá-la mais longe e mais livre.

Dos 50 metros rasos às maratonas. Das pistas escolares às ultramaratonas. Do Cruce de los Andes às grandes provas internacionais. Da menina que corria porque gostava de correr à mulher que hoje inspira milhares de pessoas através do esporte.

Mas talvez a sua maior conquista não esteja nos números e sim na forma como Mih aprendeu a ocupar espaços.

Como mãe dos gêmeos Dom e Gael, encontrou maneiras de continuar treinando quando muitos acreditavam que a maternidade representaria uma pausa. Como atleta, mostrou que a alta performance pode coexistir com a vida real. Como mulher, construiu sua trajetória sem abrir mão da própria verdade.

No mês em que o mundo celebra o orgulho LGBTQIA+, a história de Mih ganha um significado ainda mais profundo. Não porque ela queira ser definida por rótulos, mas porque representa algo poderoso: a liberdade de viver plenamente quem se é.

Em junho celebramos o Mês do Orgulho, uma data que tem como marco histórico a Revolta de Stonewall, ocorrida em 28 de junho de 1969, em Nova York. Mais do que uma celebração, o período convida à reflexão sobre visibilidade, respeito e pertencimento. E poucas histórias traduzem tão bem esses valores quanto a de Mih Cezar.

Ao lado da companheira Marina, dos filhos e dos sonhos que ainda a movem — entre eles, a tão desejada maratona sub-3 em Chicago —, Mih segue correndo.

Correndo por paixão. Correndo por liberdade. Correndo porque, depois de 33 anos, a corrida continua sendo o lugar onde ela encontra a si mesma.

E talvez seja exatamente isso que torna sua história tão especial.

”Quando olho para trás, não vejo apenas quilômetros percorridos. Vejo uma vida inteira transformada pelo esporte.” — Mih Cezar

Uma vida inteira em movimento

RRB: O que sente ao perceber que está completando 33 anos de corrida?

Mih Cezar: Sinto gratidão. A corrida me acompanhou durante praticamente toda a minha vida. Ela esteve lá quando eu era uma menina pobre que corria descalça, quando sonhava sem saber se teria oportunidades, quando me tornei mãe e também agora, como mulher adulta, atleta e criadora de conteúdo. Quando olho para trás, não vejo apenas quilômetros percorridos. Vejo uma vida inteira transformada pelo esporte.

RRB: Você começou num projeto social aos 5 anos. Em que momento percebeu que a corrida não era apenas uma atividade, mas parte da sua identidade?

Mih Cezar: Acho que percebi quando entendi que a corrida não estava apenas mudando meus resultados, ela estava mudando a forma como eu enxergava a mim mesma e o mundo ao meu redor. A corrida me ensinou disciplina, confiança e pertencimento. Foi ali que percebi que ela faria parte de quem eu sou para sempre. Ao longo dos anos vieram as corridas de rua, o atletismo, o triathlon, as ultramaratonas e as grandes maratonas. Mas a essência permaneceu a mesma.

RRB: O que ainda faz você acordar e querer correr?

Mih Cezar: A liberdade. A corrida continua sendo o lugar onde encontro a mim mesma. Não importa quantas responsabilidades eu tenha, quantas preocupações estejam presentes ou quantos desafios apareçam, quando corro, lembro de quem eu sou e de onde eu vim.

Mãe, atleta e sem pedir desculpas

”Sair da pobreza, criar meus filhos com amor, construir minha carreira e continuar correndo depois de tantas décadas é uma conquista muito maior do que qualquer medalha.” — Mih Cezar

Durante muito tempo, a sociedade repetiu a ideia de que a maternidade exigia renúncias, que determinadas conquistas precisavam ser colocadas em espera. Que algumas mulheres precisavam escolher. Mih escolheu outro caminho, escolheu continuar.

Treinando quando dava, correndo quando era possível, adaptando-se sem desistir, e transformando os filhos em parte da jornada.

Quem acompanha sua trajetória já viu inúmeras imagens de Dom e Gael acompanhando a mãe em treinos e provas. Em uma delas, Mih completou uma meia maratona empurrando o carrinho dos filhos e cruzou a linha de chegada em impressionantes 1h53.

RRB: O que seus filhos aprendem ao verem a mãe correndo?

Mih Cezar: Acredito que eles aprendem que vale a pena lutar pelos próprios sonhos. Quero que eles entendam que a disciplina, a dedicação e a coragem podem levar qualquer pessoa muito longe.

RRB: Muitas mulheres sentem culpa ao reservar tempo para si mesmas. Você já sentiu isso?

Mih Cezar: Sim, em alguns momentos, mas também entendi que cuidar de mim faz de mim uma mãe melhor. Quando treino, fico mais forte física e emocionalmente, e isso reflete diretamente na forma como cuido dos meus filhos.

Orgulho de existir

RRB: Qual foi a maior vitória da sua vida que não teve medalha?

Mih Cezar: Ter conseguido transformar a minha história sem esquecer de onde vim. Sair da pobreza, criar meus filhos com amor, construir minha carreira e continuar correndo depois de tantas décadas é uma conquista muito maior do que qualquer medalha.

O esporte sempre foi apresentado como um território de superação. Mas para muitas pessoas, antes da superação existe outro desafio: o de simplesmente ocupar espaços.

Mesmo em um ambiente que celebra diversidade, inclusão e liberdade, ainda existem barreiras invisíveis para muitas mulheres LGBTQIA+.

Mih conhece essas realidades, mas escolheu enfrentá-las da mesma forma que encara uma maratona: um passo de cada vez.

RRB: Como é ocupar espaço no esporte sendo mulher, atleta, mãe e vivendo uma relação com outra mulher?

Mih Cezar: Para mim, ocupar esse espaço é um ato de verdade. Sou mãe do Dom e do Gael, atleta há 33 anos e hoje construo minha vida ao lado da Marina, minha companheira, que me ajuda 100% no esporte, nos meus sonhos e em todos os desafios que escolho enfrentar. Ter alguém que acredita em mim dessa forma faz toda a diferença.

”Mas também é impossível ignorar que ainda existem poucos espaços de representatividade dentro do mercado esportivo.” — Mih Cezar

Quando olhamos para campanhas, patrocínios e embaixadores das grandes marcas, ainda vemos, na maioria das vezes, os mesmos perfis, os mesmos corpos e os mesmos modelos de família. Existem muitas pessoas LGBTQIA+ ocupando o espaço, conquistando resultados e inspirando comunidades, mas ainda somos pouco vistos.

RRB: Ainda faltam referências LGBTQIA+ na corrida?

Mih Cezar: Muito. A corrida é democrática quando estamos na rua, mas quando olhamos para campanhas, patrocínios e oportunidades dentro do mercado esportivo, ainda existe uma distância enorme entre a diversidade que vemos nas ruas e a diversidade que vemos representada. Ainda faltam referências, mas principalmente faltam oportunidades.

RRB: Em algum momento sentiu que precisava provar mais do que os outros?

Mih Cezar: Sim. Primeiro por ser mulher, depois por vir de uma realidade extremamente humilde. Mais tarde por ser mãe, e também por viver uma relação com outra mulher. Em muitos momentos senti que precisava entregar mais para receber o mesmo reconhecimento, mas o tempo me ensinou que eu não preciso provar que mereço estar aqui. Minha história fala por si só.

O esporte muda destinos

”O esporte transformou completamente a minha vida, corri descalça durante muitos anos. E foi através da corrida que surgiram oportunidades que pareciam impossíveis.” — Mih Cezar

Ao falar sobre transformação social, Mih não recorre a teorias, ela fala da própria vida.

RRB: Você acredita que o esporte pode ser uma ferramenta poderosa de transformação social?

Mih Cezar: Eu sou a prova viva disso. O esporte transformou completamente a minha vida. Passei fome, corri descalça durante muitos anos. E foi através da corrida que surgiram oportunidades que pareciam impossíveis. Os corredores do projeto social onde comecei ajudaram a construir, em mutirão, a casa onde minha mãe mora até hoje. Quando olho para essa história, entendo que o esporte é muito mais do que competição. O esporte cria pertencimento, cria oportunidades e muda destinos. Mudou o meu.

A menina que corria descalça

”Sou alguém que ainda se emociona ao lembrar da própria história e que nunca deixou de acreditar no poder transformador do esporte.” — Mih Cezar

Aos 38 anos, Mih segue acumulando sonhos, alguns deles já têm endereço e data: Chicago, sub-3.

Mas, curiosamente, seu maior combustível continua sendo o mesmo daquela menina que começou a correr aos cinco anos.

RRB: O que ainda move você?

Mih Cezar: Os sonhos que ainda não realizei, minha história, as pessoas que se inspiram na minha trajetória. E a certeza de que ainda tenho muitos quilômetros para viver.

RRB: O que é a vida para você?

Mih Cezar: A vida é movimento, é seguir em frente mesmo quando o caminho parece difícil. É amar, aprender, cair, levantar e continuar acreditando.

RRB: E o que espera do futuro?

Mih Cezar: Continuar correndo, ver Dom e Gael crescerem felizes, construir muitas memórias ao lado da Marina, conquistar minha maratona sub-3 em Chicago. E continuar mostrando, através da minha história, que o esporte tem o poder de transformar vidas. Porque um dia ele transformou a minha.

”Que ninguém permita que a sua origem determine o tamanho dos seus sonhos.” — Mih Cezar

Galeria de Imagens

Mih Cezar 01 Mih Cezar 02 Mih Cezar 03 Mih Cezar 04 Mih Cezar 05 Mih Cezar 06 Mih Cezar 07 Mih Cezar 08 Mih Cezar 09 Mih Cezar 10 Mih Cezar 11 Mih Cezar 12 Mih Cezar 13 Mih Cezar 14 Mih Cezar 15 Mih Cezar 16 Mih Cezar 17 Mih Cezar 18 Mih Cezar 19 Mih Cezar 20 Mih Cezar 21 Mih Cezar 22 Mih Cezar 23 Mih Cezar 24 Mih Cezar 25 Mih Cezar 26
Dani Christoffer

Dani Christoffer

Editora Runners Brasil e Jornalista (Time Runners)

Jornalista Periodista • Maratonista VIVÍ MEJOR @ellitoral Editora-chefe Revista Runners Brasil