Saúde Bucal na Corrida

Genética ou hábitos, o que realmente define seu desempenho na maratona e sua saúde

Entenda como fatores genéticos, ambientais e comportamentais influenciam a performance do corredor e a saúde bucal, e por que estilo de vida e disciplina fazem mais diferença do que herança.

Por: Dr. Victor Wolwacz Edição 48 - abril 2025
Genética ou hábitos, o que realmente define seu desempenho na maratona e sua saúde

A preparação para longos desafios como uma maratona ou uma meia maratona envolve treinos específicos, cuidados com alimentação e suplementação, cuidados com a recuperação e com a qualidade do sono, bem como fisioterapia, exames médicos e odontológicos e tempo para treinar. Tudo isso, na maioria das vezes, entremeio a rotina de trabalho, de filhos, de aulas, de cursos… Ou seja, um plano que, na dependência do preparo do corredor, pode durar meses ou anos até que consiga obter êxito.

Por “preparo do corredor” digo a influência dos fatores genéticos, ambientais e comportamentais sobre o desempenho do atleta. E sobre isto, muitas dúvidas surgem sobre o que geneticamente herdamos e se podemos mudar. Se sim, qual a magnitude desta mudança e com proceder? Vale a pena o esforço? Para aperfeiçoar, o que se faz necessário? Imaginem se não pudéssemos alterar nada, a vida não seria muito pobre e previsível? Ter uma atitude determinista e conformista é válido?

Um exemplo relacionado à corrida é a capacidade máxima do corpo de consumir oxigénio durante o exercício físico (VO2). Com a idade, ocorre uma diminuição de forma natural dessa capacidade aeróbica, mesmo na ausência de doenças. No entanto, fatores como obesidade, sedentarismo, doença cardiovascular e diabetes, dentre outros, também afetam negativamente o VO2 acelerando a perda deste atributo com o passar do tempo. Portanto, o estilo de vida, a mudança de hábitos, o conhecimento do que pode ser feito e como fazer tornou-se parte importante da longevidade com qualidade, tanto no nosso dia a dia, como na prática diária da corrida.

Já na Odontologia, quando o assunto é saúde, além de bons diagnósticos, é preciso ter planejamento de longo prazo para que esta se mantenha ao longo do tempo. Os avanços técnico-científicos não só aprimoraram os recursos de diagnóstico, como também vêm oferecendo tratamentos mais modernos e estéticos, porém sem a garantia da manutenção da saúde bucal ao longo do tempo. Para que esta seja alcançada e mantida depois de um tratamento, tanto o profissional quanto o paciente deverão estar espertos aos mesmos fatores genéticos, ambientais e comportamentais que influenciam o desempenho atlético de um corredor em provas de longos percursos.

Muitos de nós, por exemplo, já ouvimos, pessoas comentando que tem predisposição a perder dentes por problemas periodontais ou que têm sangramento gengival, porque herdaram geneticamente essa característica familiar. Comentam, às vezes com algum orgulho e resignação, para não fazer o movimento para mudar. Fato: a predisposição para doenças de gengiva, em particular as que levam a perda de suporte dos dentes, tem um componente genético, que pode interferir na evolução da doença. Porém causa do estabelecimento e progressão das periodontites tem principalmente a ver com a capacidade do indivíduo em controlar a placa bacteriana. Ou seja, a capacidade de limpar seus dentes diariamente e ter acompanhamento profissional.

Relatos semelhantes são ouvidos por dentistas com relação a doença cárie. Por exemplo a situação em que um irmão, que não cuida dos dentes, não tem cáries, enquanto o outro, dedicado, acaba sempre tendo que ir ao dentista com algum problema renovado. Importante lembrar que, neste caso, mesmo que os componentes salivares de ambos os irmãos sejam desfavoráveis ao desenvolvimento de cárie ou que os dentes tenham esmaltes com anatomia e qualidade também protetivas, se um irmão comer mais açúcar que outro, isto é, desafiar mais cariogenicamente seus dentes por um fator comportamental, ou viver numa região sem contato com íons flúor (fator ambiental), o fator genético acaba sendo irrelevante.

Por fim, o conhecimento dos aspectos genéticos, ambientais e comportamentais que podem influenciar o desempenho atlético ou de manutenção de saúde só terão relevância se o corredor ou o paciente estiverem dispostos a superar as limitações impostas e se desafiar a fazer diferente, com ajuda profissional quando necessário. Neste caso, para completar uma maratona ou ter uma boca saudável.  

Dr. Victor Ferrás Wolwacz / Dra. Ana Chapper

Dr. Victor Wolwacz

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Dentista (Time Runners)

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