Ela nasceu no interior da Bahia, cresceu em um povoado simples e descobriu o atletismo quase por acaso — mas o talento falou mais alto desde o primeiro passo. Aos 14 anos, Núbia de Oliveira venceu todas as provas que disputou sem nunca ter treinado antes. O que parecia apenas uma experiência escolar se transformou em um caminho de conquistas, disciplina e sonhos que ultrapassaram fronteiras.
Hoje, aos 23 anos, Núbia carrega números impressionantes: 16 convocações para a Seleção Brasileira, 16 títulos nacionais, títulos sul-americanos e um feito histórico — terceiro lugar na São Silvestre em 2024 e 2025, justamente na edição que celebrou 100 anos da prova mais tradicional da América Latina.
Da zona rural de Campo Formoso aos grandes palcos do atletismo mundial, Núbia corre não apenas por vitórias, mas por transformação. Nesta entrevista exclusiva à Revista Runners Brasil, ela fala sobre origem, sonhos, desafios, maturidade precoce e o peso — e o orgulho — de representar o Brasil nas ruas e nas pistas.
ORIGEM, INFÂNCIA E PRIMEIROS PASSOS
REVISTA RUNNERS BRASIL:
Você nasceu em Campo Formoso, foi criada no povoado Rego e hoje vive em Jaguarari. O que essa origem simples te ensinou sobre esforço, disciplina e sonhos?
Núbia de Oliveira:
Quando a gente vive em um lugar pequeno, as pessoas não têm perspectiva de que a gente pode sonhar alto e realizar grandes sonhos, principalmente por ser filha de pessoas simples. Mas é nas adversidades que a gente conhece a nossa força. Sempre fui perseverante e, vendo meus pais sempre lutando para que a filha tivesse um futuro melhor que o deles, sempre acreditei que poderíamos mudar essa realidade.
RRB:
Como era a Núbia criança? Você já se via como atleta ou o esporte apareceu de forma totalmente inesperada?
Núbia de Oliveira:
A Núbia criança sempre foi aquela menina disposta a fazer tudo. Amava ajudar a mãe em casa com os afazeres, ajudar na roça e brincar muito. Eu não me via como uma atleta profissional de atletismo, mas sempre fui apaixonada pelo esporte. Ele apareceu para mostrar para mim e para meus pais que o esporte transforma vidas. Eu não conhecia nada sobre o atletismo, e foi através do professor de Educação Física que eu conheci. A partir daquele momento em que ele me apresentou, senti muito interesse em conhecer e praticar.
RRB:
O apoio da sua família — seus pais, Zelito e Sandra, e suas irmãs Talita e Kássia — sempre esteve presente? O que eles representam na sua trajetória?
Núbia de Oliveira:
Meus pais e minhas irmãs sempre estiveram comigo desde o início, me incentivando e apoiando em cada decisão. Eles são o meu alicerce para poder dar continuidade a todo o trabalho que vem sendo feito. Representam muita força, coragem e disciplina. Tudo o que sou devo a eles. Toda essa coragem e força vêm dos meus pais, que nunca desistiram e sempre buscaram o melhor para nossa família.
Para minhas irmãs, quero ser referência, mostrar sempre a elas que podem chegar onde quiserem, seja como atletas ou em outra profissão. Que possam dar muito orgulho aos nossos pais, assim como eles sentem de mim.
O DESCOBRIMENTO DO TALENTO
RRB:
Aos 14 anos, você participou de quatro provas diferentes na escola e venceu todas, sem nunca ter treinado. Você lembra o que sentiu naquele dia?
Núbia de Oliveira:
Foi uma sensação única. Eu nunca tinha participado de nenhuma competição, foi a minha primeira vez sendo campeã. Quando cheguei em primeiro lugar, a ficha não caiu. No momento em que cheguei, dei entrevista para a rádio regional e senti muita felicidade. Tinha apenas 14 anos vivendo um momento marcante. Depois, quando vi as quatro medalhas no meu pescoço, só queria chegar em casa para mostrar para minha família. Foi a primeira vez que ganhei algo.
RRB:
Quando o professor Ferreirinha te convidou para a Escolinha de Atletismo Flamengo, você imaginava que aquele convite mudaria sua vida?
Núbia de Oliveira:
Eu acreditava que sim, só não imaginava que teria essa proporção tão grande e rápida. Quando ele me convidou, vi uma grande oportunidade de mudar a realidade dos meus pais e ter um futuro melhor. Eu agarrei e acreditei.
RRB:
Em que momento você percebeu: “isso não é só um esporte, isso pode ser o meu futuro”?
Núbia de Oliveira:
Em 2020, quando fui convocada pela primeira vez para representar o Brasil no Campeonato Pan-Americano de Cross Country, no Canadá. Quando a ficha caiu de que eu estava viajando para conhecer outro país e que receberia a bolsa atleta para poder ajudar meus pais, isso abriu muito a minha visão de que o esporte transformaria toda a minha vida.
“Eu me vejo como uma inspiração para meninas do interior que buscam mudar de vida através do esporte.”
— Núbia de Oliveira
SELEÇÃO BRASILEIRA E VIRADA DE VIDA
RRB:
Em 2020, você conquistou o título no Cross Country e foi convocada pela primeira vez para a Seleção Brasileira. O que mudou internamente naquele momento?
Núbia de Oliveira:
Conquistei meu primeiro título brasileiro e já consegui a vaga para representar o Brasil. Foi uma sensação muito boa. Falei para mim mesma que voltaria muitas vezes para vestir a camisa da Seleção. Ali criei novos sonhos e vi que poderia chegar muito longe.
RRB:
Representar o Brasil no Canadá ainda tão jovem foi um divisor de águas? O que mais te marcou nessa experiência internacional?
Núbia de Oliveira:
Foi uma experiência incrível. Estar ao lado de grandes atletas, que eram nossas referências no esporte, e poder dividir conhecimentos e experiências com atletas da categoria adulta.
RRB:
Você costuma dizer que aos 18 anos entendeu que o esporte poderia transformar a sua vida e a da sua família. O que essa consciência trouxe de responsabilidade? E o Exército, onde entra na sua história?
Núbia de Oliveira:
Entender que o esporte pode transformar a vida e a da família traz uma grande responsabilidade de aproveitar essa oportunidade para crescer, melhorar pessoalmente e influenciar positivamente na família. Sempre foi um sonho fazer parte das Forças Armadas como atleta/militar. Eu já havia tentado entrar, mas não tinha conseguido. Em 2025, devido aos excelentes resultados, consegui realizar esse sonho profissional. O Exército Brasileiro nos dá suporte para buscarmos nossos objetivos e nos dá mais confiança para continuar firmes e fortes nos treinamentos.
CONSISTÊNCIA, TÍTULOS E MATURIDADE
RRB:
São 16 convocações para a Seleção e 16 títulos brasileiros. Qual dessas conquistas teve o maior peso emocional?
Núbia de Oliveira:
Foi o Troféu Brasil de 2024, na prova dos 10.000 m. Era um sonho me tornar campeã brasileira na maior competição interclubes da América Latina.
RRB:
O que mais evoluiu em você nesses últimos anos: o corpo, a mente ou a estratégia de prova?
Núbia de Oliveira:
De forma geral, evoluí bastante fisicamente, mentalmente — que é um dos fatores mais importantes na trajetória do atleta — e também na estratégia de prova. Vamos conhecendo nossas adversárias. Hoje me vejo muito mais experiente e preparada para lidar com as dificuldades dentro e fora da prova.
RRB:
Como você lida com a pressão de manter a regularidade e continuar performando em alto nível?
Núbia de Oliveira:
Tenho grandes objetivos pela frente e sempre tento estar ao máximo focada neles, ficando tranquila em relação aos resultados, porque quando a mente está alinhada ao corpo, tudo flui. E não me distraio com o que não agrega à minha carreira.
SÃO SILVESTRE — HISTÓRIA SENDO ESCRITA
“Ser a melhor brasileira em uma prova tão tradicional e importante como a São Silvestre aumenta a motivação para buscar meus objetivos e o reconhecimento.”
— Núbia de Oliveira
RRB:
Você foi terceira colocada na São Silvestre em 2024 e 2025. O que significa subir ao pódio da prova mais tradicional da América Latina duas vezes seguidas?
Núbia de Oliveira:
Subir ao pódio da São Silvestre é um momento mágico, um sentimento que não cabe dentro do peito. É a maior prova do Brasil e o sonho de todo atleta brasileiro é poder um dia estar ali. Dois anos consecutivos no pódio mostram que estamos em uma constância muito boa, e o sonho de um dia subir no lugar mais alto do pódio está vivo. É só questão de tempo e de continuidade do trabalho.
RRB:
A edição de 2025 marcou os 100 anos da São Silvestre. Você sentiu o peso histórico dessa prova enquanto corria?
Núbia de Oliveira:
Foi um momento especial participar da edição centenária. Eu não senti pressão, e sim uma motivação a mais para buscar o pódio para o Brasil nessa edição histórica. Entrei na prova determinada a fazer tudo o que foi treinado.
RRB:
Ser a melhor brasileira em uma edição centenária muda algo na sua relação com a prova?
Núbia de Oliveira:
Ser a melhor brasileira em uma prova tão tradicional e importante como a São Silvestre aumenta a motivação para buscar meus objetivos e o reconhecimento. É um marco na minha carreira de atleta.
RRB:
A São Silvestre é uma corrida muito simbólica para o público. O que você gostaria que as pessoas entendessem ao olhar para o seu pódio?
Núbia de Oliveira:
Gostaria que entendessem que meu pódio representa anos de dedicação, disciplina e superação pessoal. É um símbolo de que, com trabalho duro e perseverança, é possível alcançar objetivos elevados, mesmo diante de desafios. Que meu desempenho possa inspirar outras pessoas, mostrando que é possível competir em alto nível e representar o país com orgulho.
SONHOS, FUTURO E REPRESENTATIVIDADE
RRB:
Você já é campeã sul-americana nos 10.000 m e na meia maratona. Onde você se sente mais forte hoje: pista ou rua?
Núbia de Oliveira:
Eu me sinto bem tanto na rua quanto na pista, porque ao mesmo tempo tenho resistência e velocidade. São duas valências que tenho para alcançar meus objetivos.
RRB:
Quais são seus grandes objetivos para os próximos anos no atletismo?
Núbia de Oliveira:
Me tornar uma atleta olímpica, me tornar campeã da São Silvestre e quebrar recordes nos 10 km, 21 km e futuramente nos 42 km.
RRB:
Você se vê como referência para meninas do interior que sonham em mudar de vida através do esporte?
Núbia de Oliveira:
Eu me vejo como uma inspiração para meninas do interior que buscam mudar de vida através do esporte, mostrando que com dedicação, disciplina e paixão é possível superar obstáculos e alcançar objetivos, independentemente da origem ou das condições. O esporte pode ser a chave da transformação pessoal e profissional, além de abrir portas para um futuro melhor.
RRB:
Que mensagem você gostaria de deixar para quem está começando agora, sem estrutura, mas com muita vontade? Uma frase?
Núbia de Oliveira:
Vá em frente, não tenha medo. O mundo é seu para conquistar. Se você acreditar que tudo é possível, as coisas irão acontecer. Se eu cheguei, você pode chegar.
RRB:
O tema da revista deste mês é “Recomeços inteligentes, sustentáveis e sem excessos, construindo a base do ano que o corredor realmente consegue manter.” Como você vê esse momento para muita gente e quais são suas dicas?
Núbia de Oliveira:
Essa etapa é a mais importante para o atleta, pois é necessário fazer uma boa base, com treinos de força e fortalecimento, para que a musculatura esteja preparada para suportar todos os esforços durante a preparação.
BATE-BOLA — NÚBIA DE OLIVEIRA
• Uma palavra que define sua infância: felicidade
• Uma palavra que define a São Silvestre: sonho
• Seu maior medo antes de uma prova: nenhum
• Sua maior força durante a prova: Deus e minha família
• Um sonho ainda não realizado: me tornar uma atleta olímpica
• Uma atleta que te inspira: Maria Zeferina e Marily dos Santos
• Música que não pode faltar no treino: O Escolhido — Elienton Johnson
• Comida preferida pós-prova: comida de mainha
• Se não fosse atleta, seria: professora
• Correr é, para você: superação
• A vida é, para você: esperança

