Saúde Bucal na Corrida

Bebidas Isotônicas e Saúde Dental: O que você precisa saber

Desgastes dentários, erosão e cárie, o que o corredor precisa entender

Por: Dr. Victor Wolwacz Edição 57 - janeiro 2026
Bebidas Isotônicas e Saúde Dental: O que você precisa saber

A odontologia tem passado por grandes mudanças conceituais nos últimos anos. Novos materiais e tecnologias têm sido de grande valia para nós, dentistas, e, consequentemente, para nossos pacientes. Para tanto, o entendimento das doenças dentárias, a partir de estudos bem conduzidos, é a base para o uso destas novas tecnologias a nosso favor e em benefício dos nossos pacientes. Exemplo disto, são lesões não cariosas, tema atual e potencialmente presente nos atletas corredores, que podem afetar as estruturas mineralizadas dos dentes, denominadas genericamente de desgastes. É importante observar que os dentes se desgastam com o passar dos anos, e que, a princípio, estes desgastes devem ser vistos como um processo fisiológico de envelhecimento normal, que corresponde a uma adaptação do indivíduo ao tempo. Entretanto, existem situações onde essa adaptação não é mais fisiológica e sim patológica. Sendo assim, estaremos frente a lesões não cariosas que podemos classificar como erosão, quando a origem se deve a ácidos da dieta, abrasão, quando o desgaste for mecânico, como durante a escovação dental, atrição desgaste de dente contra dente, e abfração, resultado de forças excêntricas na mordida como as que ocorrem no bruxismo, por exemplo.

Para nós corredores, é comum a utilização de carboidratos e bebidas isotônicas durante os treinos e competições. Entretanto, em algumas situações, esse consumo pode ser um fator de risco tanto para a ativação da doença cárie e manifestação de doenças gengivais, bem como, devido ao seu potencial ácido, causar erosão nas estruturas dentárias.
A doença cárie, ao contrário do senso comum, não é o reflexo de um único evento, mas, sim, de um desequilíbrio de um processo fisiológico da boca, em que há mais perdas minerais do que ganhos, de forma localizada, sobre as estruturas duras dos dentes. Esse dinâmico processo des-remineralizador, que ocorre o tempo todo dentro da cavidade bucal, é resultado da ação protetora da saliva e de íons fluoretos sobre os tecidos dentários agredidos por os ácidos produzidos por bactérias, após o metabolismo dos açúcares oriundos da alimentação.

A gengiva, tecido que envolve nossos dentes, tem a função de proteger o sitema de suporte desses, na boca. Estando saudável, ela só sangrará ser for rompida por um traumatismo. O sangramento gengival é causado pelo acúmulo de bactérias sobre os dentes em tamanha quantidade capaz de provocar uma reação no tecido a ponto de deixá-lo fino e frágil. Isto não se deve a um tipo específico de microorganismo, mas a condições que favorecem diferentes tipos bacterianos capazes produzir as toxinas que provocam a reação inflamatória que culmina no sangramento gengival. Em média, diz-se que quando há sangramento, existe, no local afetado, um biofilme bacteriano de, pelo menos, sete dias em formação, sem que o mesmo tenha sido removido durante a higiene dental neste período.

E a erosão? O que é? A erosão é a perda patológica, crônica e localizada de estrutura dental submetida ao ataque ácido sem o envolvimento de bactérias. Com relação a origem da fonte ácida, a erosão pode ser classificada como extrínseca, isto é, ácidos provenientes da dieta, intrínseca, quando os ácidos vêm do suco gástrico ou do ar ácido, ou idiopática, isto é, de origem desconhecida. O diagnóstico clínico é realizado pelo dentista a partir das características presentes no esmalte dental e no relato do paciente durante a anamnese.

Em uma recente revisão de literatura, foi identificado uma alta prevalência de doenças bucais em atletas de elite, notadamente cáries dentárias de 20-84%, erosão dentária de 42-59%, gengivite de 58-77% e doença periodontal de 15-41%. Segundo os autores, razões para a má saúde bucal dos atletas inclui dieta esportiva e deficiente higiene bucal. A ideia central desse estudo foi ajudar atletas, treinadores, médicos, dentistas e nutricionistas a entender as conexões complexas entre dieta esportiva, saúde geral e saúde bucal, a fim de desenvolver estratégias de mitigação que reduzam o risco de doenças dentárias devido à nutrição.

Em outro estudo, os autores fizeram uma revisão sistemática que incluiu artigos publicados entre 1997 e 2021, com o objetivo de avaliar o potencial erosivo dental das bebidas energéticas e soluções isotônicas consumidas por atletas. Foi identificado e incluído um total 567 atletas de quatro países diferentes. Os resultados mostraram que a prevalência de erosão dental variou de 19,4% a 100%. As avaliações de gravidade mostraram que entre 52,4% e 75,2% dos atletas tiveram esmalte afetado, e 24% a 57,1% tiveram tanto esmalte quanto dentina afetados. Dos estudos incluídos na pesquisa, apenas um constatou que o consumo de bebidas esportivas realizados por nadadores que treinam em piscinas cloradas duplicou o risco de desenvolvimento de erosão dentária.

As evidências disponíveis sugerem que o consumo isolado de bebidas esportivas não esteve associado à erosão dentária. No entanto, para estabelecer evidências mais conclusivas sobre o potencial erosivo de bebidas esportivas, energéticos e soluções isotônicas na saúde bucal dos atletas, são necessários mais estudos. Esses estudos devem incluir uma padronização dos índices e variáveis aos quais os atletas estão submetidos, incluindo hábitos alimentares e de saúde, condições orais e fatores de proteção. Além disso, um número maior de atletas deve ser incluído para estabelecer evidências mais conclusivas sobre o potencial erosivo de bebidas esportivas, energéticos e soluções isotônicas na saúde bucal dos atletas.

Para finalizar, bebidas ácidas comercializadas como “saudáveis” (sucos de frutas, smoothies, águas vitamínicas, kombucha, águas gaseificadas, bebidas esportivas/energéticas) podem contribuir para a erosão dental, pois apresentam um pH ácido. Sucos/smoothies de frutas (pH ≈ 3–4) e kombucha (pH ≈ 2,5–3,5) frequentemente superavam o potencial erosivo dos refrigerantes gaseificados. Bebidas esportivas/energéticas (pH ≈ 3,1–3,6;) apresentaram fortes associações com desgaste erosivo dos dentes em populações ativas. Fatores mitigantes incluem fluxo salivar, padrões de consumo – frequência, e, presença de flúor e cuidados com a higiene oral e alimentação. Sendo assim, bebidas consideradas saudáveis podem apresentar um risco substancial de erosão dentária.

Assim, presado corredor, converse com o seu dentista a respeito de seus hábitos e consumo de bebidas isotônicas e carboidratos durantes os treinos. Certamente seu dentista fará uma revisão minuciosa de seus hábitos, passando pelo tipo de contato de sua cavidade bucal com íons fluoreto, bem como a quantidade, qualidade e frequência do consumo de açúcares e carboidratos fermentáveis e bebidas isotônicas. Durante a consulta o dentista buscará saber se o processo de ganho e perda mineral está dentro dos padrões fisiológicos de saúde ou não. Caso não esteja, ele poderá ver se é possivel interferir, a partir de toda tecnologia disponível, no processo de erosão e estabelecer medidas preventivas ou um tratamento conservador. Boas corridas.

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Dr. Victor Wolwacz

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