Nutrição Esportiva

Cuidar do corpo também é parte do treino

Por: Ana Kist Edição 62 - junho 2026
Cuidar do corpo também é parte do treino

Quando pensamos em nutrição esportiva, é comum associarmos a alimentação ao desempenho: correr mais rápido, completar uma prova ou alcançar um novo recorde pessoal. Mas existe uma perspectiva que merece cada vez mais espaço entre corredores de todos os níveis: a alimentação como uma ferramenta de cuidado.

A corrida nos ensina a ouvir o corpo. Aprendemos a reconhecer os dias em que estamos fortes, os momentos em que precisamos desacelerar e os sinais que indicam que algo não está bem. E a alimentação faz sim parte desse processo de autoconhecimento.

Alimentação como ferramenta de cuidado do corpo

É meus amigos, cuidar do corpo não começa só quando surge uma lesão ou quando o cansaço se torna excessivo (pelo menos não deveria). Esse cuidado deve acontecer diariamente, por meio das escolhas que fazemos à mesa.

Uma alimentação adequada fornece energia para os treinos, contribui para o funcionamento do sistema imunológico, favorece a saúde hormonal e ajuda o organismo a lidar melhor com as demandas físicas e emocionais da rotina.

Mais do que calcular calorias ou seguir regras rígidas, alimentar-se bem é oferecer ao corpo os recursos necessários para que ele responda da melhor forma possível aos desafios da corrida e da vida.

Comer para recuperação e bem-estar

Muitos corredores valorizam o treino, mas subestimam a recuperação. É, quem nunca né?! No entanto, é justamente durante a recuperação que acontecem as adaptações que nos tornam mais fortes.

Após um treino, o organismo precisa repor energia, reparar tecidos musculares e restabelecer seu equilíbrio interno. Uma alimentação adequada nesse período pode reduzir a fadiga, melhorar a disposição para os treinos seguintes e contribuir para uma sensação geral de bem-estar.

Mas existe um componente da recuperação que merece tanta atenção quanto a alimentação: o sono. É durante o sono que ocorre grande parte dos processos de reparação muscular, consolidação das adaptações ao treinamento e regulação hormonal. Dormir pouco ou dormir mal pode prejudicar a síntese proteica, aumentar a percepção de esforço, comprometer a recuperação e elevar o risco de lesões e adoecimento.

Em outras palavras, não existe estratégia nutricional capaz de compensar noites mal dormidas de forma crônica, entendido?

A boa notícia é que alimentação e sono caminham juntos. Alguns alimentos podem contribuir para um estado de relaxamento e favorecer a qualidade do sono, especialmente quando consumidos dentro de uma rotina equilibrada. Fontes de triptofano, aminoácido precursor da serotonina e da melatonina, merecem destaque:

Leite e iogurte, banana, aveia, kiwi, cereja, castanhas e sementes são exemplos de alimentos que podem fazer parte de uma refeição leve no período noturno.

Além disso, algumas infusões tradicionalmente utilizadas para promover relaxamento podem ser incluídas na rotina de quem não apresenta contraindicações.

Chás de camomila, melissa (erva-cidreira), capim-limão e maracujá são opções frequentemente associadas à melhora da qualidade do sono e à redução da agitação mental ao final do dia.

Recuperar-se não é apenas estar pronto para correr novamente. É sentir-se bem para trabalhar, conviver com a família, ter clareza mental, disposição e qualidade de vida. O treino gera o estímulo, mas é a recuperação, sustentada por alimentação adequada e sono de qualidade, que permite ao corredor evoluir de forma consistente e saudável.

Relação saudável com a alimentação na corrida

Um papo sério, de mulher para mulher!

Existe uma crença que acompanha muitos atletas no esporte: a ideia de que, quanto mais leve o corpo, mais rápida será a corrida. Embora o peso corporal possa influenciar o desempenho em determinadas situações, transformar a busca pela performance em uma busca constante pela magreza pode trazer consequências importantes para a saúde, principalmente para as mulheres.

Vivemos uma época em que corpos extremamente magros voltaram a ser valorizados. Nas redes sociais, é comum ver imagens de atletas e influenciadoras com baixíssimos percentuais de gordura, muitas vezes sem qualquer contexto sobre genética, fase de treinamento, histórico esportivo ou impactos fisiológicos. O problema surge quando essa estética passa a ser confundida com saúde ou, pior, com requisito para correr bem.

A ciência mostra que a disponibilidade energética inadequada, quando a atleta consome menos energia do que o corpo precisa para sustentar os treinos e as funções fisiológicas básicas, pode desencadear uma série de alterações. Entre elas estão irregularidades menstruais, redução da produção hormonal, pior recuperação muscular, maior risco de lesões ósseas, fadiga persistente e prejuízo ao sistema imunológico.

Nos últimos anos, o conceito de RED-S (Deficiência Relativa de Energia no Esporte) ampliou a compreensão desse problema. Hoje sabemos que o impacto da baixa ingestão energética vai muito além da ausência de menstruação. Ele pode afetar praticamente todos os sistemas do organismo e comprometer tanto a saúde quanto o desempenho esportivo.

Para as mulheres, o ciclo menstrual funciona como um importante marcador de saúde. Alterações frequentes, ciclos muito espaçados ou ausência de menstruação não devem ser encarados como algo normal ou como um “efeito esperado” de quem treina muito. Muitas vezes, representam um sinal de que o corpo não está recebendo energia suficiente para sustentar suas funções.

É importante lembrar que existe uma grande diferença entre estar magra e estar saudável. Da mesma forma, existe uma grande diferença entre atingir um percentual de gordura que favorece o desempenho e perseguir níveis cada vez mais baixos sem considerar as consequências fisiológicas.

Correr bem não depende apenas de pesar menos. Depende de ter energia para treinar, recuperar, adaptar-se aos estímulos e permanecer saudável ao longo dos anos. Um corpo forte, nutrido e hormonalmente equilibrado costuma ser muito mais sustentável do que um corpo constantemente privado de energia.

Em uma cultura que frequentemente associa valor à magreza, talvez um dos maiores atos de autocuidado seja aprender a enxergar a alimentação não como inimiga da performance, mas como uma das suas principais aliadas.

No fim das contas, a maioria de nós não vive da corrida. Temos trabalho, família, contas para pagar, bastante louça para lavar e uma rotina que continua existindo depois do treino.

Por isso, talvez o maior desafio não seja apenas correr mais rápido, mas encontrar equilíbrio para continuar correndo por muitos anos, com saúde, prazer e qualidade de vida. Então, bora correr bem, recuperar melhor, dormir o suficiente e ser feliz durante o percurso.

Porque a corrida faz parte da vida, mas não deve custar a própria vida. Um beijo da nutri e até o mês que vem.

Ana Kist

Ana Kist

Nutricionista (Time Runners)

Nutricionista