De Sobradinho para o mundo, Caio Bonfim transformou a marcha atlética brasileira em notícia global. O menino que um dia trocou a bola de futebol pelos quilômetros nas pistas e se tornou o primeiro medalhista olímpico e campeão mundial da modalidade.
Mas a história vai além das medalhas: é sobre constância, disciplina e a fé de quem aprendeu desde cedo que caminhar também pode ser um ato de coragem.
Aos 34 anos, Caio Bonfim, ensinou ao Brasil a respeitar a marcha atlética
Medalhista de prata nos Jogos Olímpicos de Paris 2024 e campeão mundial em Tóquio 2025, ele prova que o sucesso se constrói em silêncio, um passo de cada vez.
Criado em uma família de marchadores, Caio superou doenças, limitações físicas e o preconceito com uma modalidade pouco compreendida. E, passo a passo, construiu um caminho impossível de ignorar: do menino que cabia no carro cheio de atletas do pai, ao campeão mundial e medalhista olímpico que fez o Brasil marchar junto.
E entre treinos improvisados e desafios de saúde, aprendeu cedo que constância é mais poderosa que talento. Há quem corra para chegar primeiro. Caio Bonfim aprendeu a marchar para nunca parar.
Nesta conversa exclusiva com a Runners Brasil, Caio revisita sua trajetória, fala sobre superação, rotina de treinos, o novo ciclo olímpico e a importância da flexibilidade e da força para quem vive o atletismo no limite.
“A vitória é detalhe, a preparação é tudo”
Infância entre treinos, valores e grandes lições
RRB: Caio, você cresceu literalmente dentro da marcha atlética — seu pai, João Sena, era o treinador da sua mãe, Gianette Bonfim, que foi oito vezes campeã brasileira e duas vezes medalhista sul-americana. Como era viver nesse ambiente esportivo desde pequeno?
Caio Bonfim: Para mim sempre foi normal esse ambiente. Meu pai era treinador de atletismo, minha mãe marchadora, e eu sempre estive em contato com a marcha. Brinco que, a primeira vez que marchei na rua e fui xingado, percebi que aquilo não era comum para todo mundo — só para mim (risos).
Cresci num ambiente saudável, e minha mãe, como atleta, foi minha maior influência. A gente não tinha férias: se estava na praia, tinha treino, cuidado com a alimentação e horário pra dormir. Cresci com muito profissionalismo e entendi cedo o que era dedicação.
Meu pai sempre incentivou o esporte, e uma das lições mais importantes que ele me deu foi sobre humildade. Eu tinha seis anos, jogava futebol e ganhei uma final fazendo dois gols. Disse pra ele que tinha sido o “salvador da pátria”, e ele me deu um cascudo: “Você fez o gol sozinho? Quem te passou a bola? Então agradeça aos seus companheiros.”
Aquilo me marcou profundamente — aprendi o valor do coletivo, algo que levo até hoje, mesmo no esporte individual.
Do carro cheio de crianças ao sonho olímpico
RRB: É verdade que seu pai colocava até doze crianças dentro do carro para levar para o treino? (risos) O que essa lembrança representa pra você hoje?
Caio Bonfim: É verdade! Meu pai sempre teve um trabalho social. O olho dele brilhava quando via uma criança se descobrindo no atletismo. Ele passava nas casas e colocava até dez meninos no carro, levava para o treino e ainda dava lanche. Esse espírito de ajudar e transformar vidas é o que mais me inspira nele.
Desafios de saúde e força desde a infância
RRB: Você enfrentou meningite, pernas arqueadas e deficiência de cálcio na infância. Mesmo assim, seguiu no esporte. De onde vinha essa força tão jovem?
Caio Bonfim: Tenho poucas lembranças dessa fase, mas sei que a força vinha dos meus pais. Hoje, como pai, entendo melhor a dedicação deles. Eles nunca me criaram com rótulos nem vitimismo. Acreditavam e me ensinavam a seguir em frente. Essa fé e esse apoio me moldaram.
Da bola à marcha atlética
RRB: Você começou no futebol, jogando como lateral na base do Brasiliense. O que te fez trocar o futebol pela marcha atlética?
Caio Bonfim: Como bom brasileiro, eu era apaixonado por futebol. Mas eu já tinha preparo físico e conhecia a técnica da marcha por causa da minha mãe. Um preparador físico notou minha resistência e comentou com meu pai, que me convidou pra uma prova.
Ele até me prometeu umas coisas pra me convencer (risos), e eu fui. Fui bem, me classifiquei, e em quatro meses já era campeão brasileiro, segundo do ranking sul-americano e 12º do mundo. Foi aí que escolhi de vez a marcha atlética.
“Não dependo das críticas, mas também não vivo dos aplausos.”- Caio Bonfim
Entre o preconceito e a construção da força mental
RRB: Essa transição foi difícil? Você chegou a mencionar que sofria piadas por escolher a marcha. Como foi lidar com isso?
Caio Bonfim: Foi um período desafiador, ainda mais na adolescência. Trocar o futebol, o esporte mais popular, pela marcha, gerava piadas na rua e na escola. O maior desafio não foi físico, foi moral.
Mas nunca pensei em desistir. Eu sabia o que queria. Minha mãe já tinha vivido algo parecido, e eu aprendi com ela a focar no propósito, não no reconhecimento.
Hoje, vejo que isso me fortaleceu: “Não dependo das críticas, mas também não vivo dos aplausos.”
Mais cidadãos do que campeões
RRB: Você disse uma vez que “seu pai fez mais cidadãos do que campeões”. O que essa frase significa pra você hoje?
Caio Bonfim: Meus pais fundaram um projeto social em 1990. O dinheiro da casa vinha do trabalho deles fora do esporte, mas o tempo e o amor eram investidos ali, transformando vidas.
Nem todos viraram atletas, mas todos saíram melhores do que chegaram. Isso é o mais bonito. Tenho várias medalhas, mas uma delas é invisível: fazer parte desse legado de transformação.
Conquistas e emoções inesquecíveis
RRB: Medalha de prata em Paris 2024 e ouro em Tóquio 2025. Qual desses momentos mais te emocionou?
Caio Bonfim: Os dois foram enormes, mas a medalha olímpica tem um peso diferente. A gente espera quatro anos, sonha com isso. Eu tinha ficado em quarto em outra Olimpíada, então quando veio a medalha… foi muito forte.
“Toda vez que lembro, me emociono — é um sentimento que não cabe no peito.”- Caio
O respeito à marcha atlética
RRB: Você acha que o Brasil está aprendendo a olhar a marcha atlética com o respeito que ela merece?
Caio Bonfim: Acho que estamos evoluindo. Ainda há desrespeito nas redes, mas o público que ama o esporte olímpico tem aprendido a admirar a marcha. É gratificante falar pra quem quer te ouvir, pra quem entende o valor do esforço.
O legado que inspira
RRB: Qual é o peso de ser o primeiro brasileiro medalhista olímpico e campeão mundial da modalidade?
Caio Bonfim: Fico feliz por ver o reconhecimento do trabalho. Acredito que essa medalha pavimentou um caminho melhor para os que virão. Quero que outros conquistem ainda mais, que o atletismo cresça cada vez mais.
Rotina, treino e o privilégio de ser treinado pela mãe
RRB: Como é sua rotina de treinos e como é ser treinado pela sua mãe?
Caio Bonfim: Treino de segunda a sábado, com dois períodos diários. Pela manhã, faço o principal — segunda, por exemplo, são 22 km pela manhã e 6 km à tarde. Sexta e sábado costumo treinar só de manhã, com longões de até 40 km.
Trabalho também com musculação e fisioterapia, variando conforme o calendário.
Ser treinado pela minha mãe é um privilégio. Fui fã dela como atleta, e hoje viajo o mundo ao lado dela.
“Ter o colo da mãe nas derrotas e o abraço dela nas vitórias é algo que o esporte me deu de presente.”- Caio Bonfim
Flexibilidade, prevenção e fortalecimento
RRB: O tema da nossa edição é a força do treinamento de flexibilidade na corrida. Como você trabalha isso?
Caio Bonfim: Desde o início, minha mãe me levava à fisioterapia para prevenir lesões. Sempre tive pouca flexibilidade, então faço muito trabalho de alongamento, mobilidade e ativação muscular.
A marcha exige técnica e amplitude de movimento, por isso a mobilidade é essencial. Meus grandes companheiros são os fisioterapeutas — eles ajudam a manter o corpo pronto pra suportar o volume de treinos.
Olhar para o futuro: Los Angeles 2028
RRB: Depois do ouro mundial e da medalha olímpica, o que te motiva neste novo ciclo rumo a Los Angeles 2028?
Caio Bonfim: Sigo motivado. Tenho uma equipe incrível: fisiologistas, fisioterapeutas, nutricionistas. O desafio é suprir 3.500 calorias diárias de forma saudável.
Como sempre digo: “Não adianta estar com o tanque cheio se a gasolina está adulterada”. A nutrição é parte fundamental do time.
Metas e sonhos
RRB: Quais são suas metas para os próximos anos?
Caio Bonfim: Depois de Tóquio, prometi a mim mesmo dar tudo nas próximas duas Olimpíadas. Paris foi um grande passo, e agora o foco é Los Angeles.
Gosto de pensar que o placar ainda está “zero a zero”. Continuo com a mesma garra. Em 2026 teremos o Mundial de Marcha em Brasília — competir em casa vai ser especial.
“Cada ano é um degrau rumo à Olimpíada”. – Caio
Legado e essência
RRB: Como quer ser lembrado no atletismo brasileiro?
Caio Bonfim: Quero ser lembrado como um atleta que sempre deu o máximo pelo Brasil. E, principalmente, quero que outros venham e conquistem mais.
“Meu trabalho só fará sentido se as próximas gerações forem ainda melhores.”
Mensagem aos jovens
RRB: Que mensagem deixaria para os jovens que estão começando no esporte?
Caio Bonfim: Não desperdicem seu talento. Haverá desafios, falta de apoio, críticas… mas o que mais me preocupa é quando o jovem se perde no caminho.
Nunca vi um ex-atleta se arrepender de ter sido atleta. Mas vejo muita gente dizendo: “Ah, se eu tivesse me dedicado mais…“Então digo: “Vai atrás. Vai valer a pena.”
Essência e propósito
RRB: O que é a marcha atlética pra você?
Caio Bonfim: É o esporte que me deu o mundo e me fez me descobrir. É minha paixão, minha história.
RRB: E o que é a vida?
Caio Bonfim: A vida é uma oportunidade que Deus nos deu pra descobrir nossos propósitos. E o meu, eu encontrei no esporte.
RRB: Quem é Caio Bonfim?
Caio Bonfim: Sou um sonhador. Gosto de sonhar, trabalhar e curtir o processo. E sou aquele sonhador que fica muito feliz toda vez que realiza um sonho e ainda é reconhecido.
RRB: E para fechar com a sua essência: se tivesse que resumir sua filosofia de atleta em uma frase, qual seria?
CAIO BONFIM: Termino essa entrevista deixando uma frase que eu aprendi um dia com Zé Roberto, treinador de vôlei.
“A vitória é detalhe. A preparação é tudo.”

