Q&A

Q&A com Valdomiro Siegieniuk

46 anos correndo e 72 maratonas no currículo

Por: Sabine Weiler Edição 57 - janeiro 2026
Q&A com Valdomiro Siegieniuk

Hoje se fala em placa de carbono, espuma especial e tênis com tecnologia de ponta, mas, quando ele fez a sua primeira maratona, nada disso existia. Foi de Kichute que Valdomiro Siegieniuk correu a sua primeira prova de 42 km. Já são 46 anos correndo e 72 maratonas no currículo – entre elas, as seis maiores do mundo. Venceu um câncer aos 80 anos e, mesmo durante o tratamento, não abandonou os treinos. Agora, aos 86, se prepara para cruzar mais uma vez a linha de chegada da maratona, na capital gaúcha, em julho – mais um recomeço depois de um período de lesão. Há dois anos, conquistou a cobiçada mandala das “Six Majors” – coroada com a Maratona de Tóquio, onde foi um dos corredores mais idosos a completar o circuito. Em entrevista à Runners Brasil, o gaúcho fala de recomeços, da conquista da tão sonhada mandala, dos treinos e de uma certeza: nunca é tarde para começar um esporte ou mesmo recomeçar.

Sabine Weiler: Qual foi o momento em que a corrida entrou na sua rotina, a ponto de virar um estilo de vida?

Valdomiro Siegieniuk: Aos 41 anos, ou seja, em 1980, após terminar a faculdade, comecei a correr um pouco no parque, a fim de aliviar o estresse. Os jovens colegas do trabalho me desafiaram para uma corrida, na qual eu ganhei de todos. A partir desse dia, não parei mais de correr, participando de diversas corridas rústicas em Porto Alegre (RS).

Sabine: Ao longo desses anos correndo, quais mudanças o senhor mais sente no corpo e na cabeça?

Valdomiro: Ao longo desses anos correndo, todas as vezes que tenho de parar por algum motivo, ou seja, alguma lesão, fico triste e ansioso para voltar logo a treinar. O corpo sente, e a mente também sente a falta da corrida.

Sabine: O que faz o senhor, aos 86 anos, escolher a corrida como seu esporte? O que mais o motiva a sair para correr?

Valdomiro: É a liberdade de correr na orla do Guaíba, em Porto Alegre, e ver a lua brilhar no céu e, logo depois, o nascer do sol. Isso, para mim, é felicidade.

Sabine: O que a corrida representa hoje para o seu humor, para a sua memória, para a sua disposição no dia a dia?

Valdomiro: Após a corrida, o corpo fica cansado, mas passo o dia inteiro de bom humor, com disposição para ajudar a minha mulher em casa. Quanto à memória, não é igual à de um jovem, mas, com a corrida, melhora muito mais.

Sabine: Quantas maratonas o senhor já correu? Qual foi a primeira delas e qual mais marcou a sua trajetória?

Valdomiro: Já corri 72 maratonas. A primeira foi a de Porto Alegre, aos 50 anos de idade. Realmente foi a que mais me marcou. Foi a primeira por vários motivos. O único “longão” que fiz antes da maratona foi um treino em torno de 20 quilômetros. E, por cima, ainda não tinha noção: não havia tênis de corrida, corri de Kichute. Quando cheguei no vigésimo quilômetro, não aguentava mais os pés inchados. Fui caminhando por um período, não tinha como desamarrar os tênis, não podia me abaixar. Indo mais um pouco, cheguei no Mercado Público, tinham colocado um chuveiro. Entrei embaixo do chuveiro, aí os pés desincharam, lógico, e eu disse: “Bom, agora eu vou até o fim”. E terminei a maratona. Essa foi a primeira e a que mais me marcou. Tenho um diploma pendurado na parede, assinado pelo prefeito de Porto Alegre. O resultado foi que, após a maratona, passei uma semana com dores musculares e com muita dificuldade para subir e descer escadas.

Sabine: A sua última maratona, em Varsóvia, não foi conforme o planejado. O que deu errado e como o senhor tentou contornar a situação correndo?

Valdomiro: Na minha última maratona, que foi em setembro de 2025, em Varsóvia, deu muita coisa errada. Por exemplo: escolhi um tênis que eu não tinha amaciado bem, não tinha testado. Corri poucas vezes com ele e achei que já era o suficiente. O resultado foi que perdi as duas unhas dos pés e tive uma lesão por estresse no osso do pé. E comi também o almoço no dia anterior, que foi sábado, e errei na escolha da comida. Resultado: tive uma indisposição estomacal. Terminei a prova pela força de vontade de não desistir e de cruzar a linha de chegada. Sempre, quando me perguntam qual é o motivo de terminar uma maratona, qual o motivo que leva a terminar, eu digo: é psicológico. Terminar uma maratona é psicológico. O profissional é uma coisa, o amador é diferente. Então, é psicológico. Tem que botar na cabeça que vai terminar, que vai conseguir. Até agora, estou conseguindo.

Sabine: Quais são os aprendizados que essa prova lhe trouxe?

Valdomiro: O principal aprendizado é lembrar sempre de não correr uma maratona sem antes amaciar bem os tênis e cuidar da alimentação no dia anterior. Eu, que já corro há tanto tempo, ainda cometo certos erros. A gente pensa que já sabe de tudo, mas às vezes a gente esquece. E dormir bem à noite, para levantar-se de manhã bem-disposto.

Sabine: A prova ainda lhe rendeu um diagnóstico de fratura por estresse e, com isso, o senhor precisou ficar parado por dois meses. Como foi esse período de recuperação?

Valdomiro: Em virtude da lesão, tive que parar por dois meses. Para não perder o condicionamento físico, frequentava praticamente a academia todos os dias. Eu posso dizer que já estou acostumado, às vezes, a parar de correr em virtude de uma lesão. Por exemplo, já fui atropelado durante o treino por um carro e tive que parar um ano, mas sempre pensando que eu ia voltar – e voltei.

Sabine: Como foi lidar com essa pausa forçada?

Valdomiro: Realmente, não é fácil aguentar esse período parado, sem treinar, sem correr. Mas, como já parei outras vezes, eu sempre tenho esperança de que vou vencer também dessa vez. Então, é triste parar, mas tem que ter esperança de que a gente vai voltar. A gente não pode desistir.

Sabine: Recomeçar faz parte e precisa ser aos poucos. Como tem sido esse retorno e o que o senhor mais tem levado em conta?

Valdomiro: Tenho de recomeçar aos poucos e devagar. Tenho que ter paciência. Agora, corro e caminho, aumentando aos poucos a distância. Não posso logo querer fazer planilha e correr uma distância “X” em tempo “Y”.

Sabine: Muita gente, quando volta de uma lesão, quer recuperar rápido o que “perdeu”. Como o senhor controla a ansiedade para não exagerar no ritmo e no volume?

Valdomiro: Na idade em que eu estou, não posso mais exagerar nos treinos para voltar mais cedo. Tudo tem a sua época.

Sabine: Para 2026, o senhor já tem dois objetivos: a Meia Maratona de Porto Alegre, em maio, e a Maratona New Balance, no fim de julho, também na capital gaúcha. Como estão os planejamentos dos treinos para chegar lá com saúde?

Valdomiro: Para essas provas, só treino pensando em terminar bem e sem lesão. Não faço mais planos para terminar em um determinado tempo.

Sabine: O senhor tem uma equipe de orientação e acompanhamento, como treinador, fisioterapeuta, nutricionista?

Valdomiro: Faço parte de um grupo de corrida, mas combinei com o treinador de treinar sem planilha. Fisioterapia eu só faço quando a lesão é muito grave.
Tenho um cisto de Baker atrás do joelho e isso vou ter que levar até o fim.

Sabine: Nem todo dia existe motivação. Como é treinar nos dias em que a cabeça não ajuda muito e é mais difícil sair para treinar?

Valdomiro: Antes de completar 80 anos, eu tive câncer de próstata. Num primeiro momento, claro que me abalou, mas depois eu pensei: “Não, não vou me entregar”.
Como eu estava inscrito para a Maratona de Lisboa, perguntei para o médico se eu podia treinar de manhã e fazer a radioterapia de tarde. O médico disse que, se a minha imunidade permitisse, eu poderia fazer. Então, eu treinava de manhã e fazia radioterapia de tarde. Após 20 sessões, numa sexta-feira, terminei. Na quarta-feira da outra semana, embarquei para Lisboa, corri no domingo, consegui um bom tempo e consegui o índice para escolher as principais Majors. Escolhi a Maratona de Chicago, onde fui o primeiro na faixa dos 80 anos. Para mim, então, sou um vencedor, realmente: venci o câncer.

Sabine: Porto Alegre faz muito calor, e as altas temperaturas interferem bastante nos treinos. Como planeja os seus treinos e quais cuidados o senhor tem nos dias quentes?

Valdomiro: Nesses dias quentes, me levanto às três da manhã e saio para treinar antes das cinco horas da manhã. E tomo muito líquido.

Sabine: Que conselhos costuma dar para quem quer seguir seu exemplo na corrida e, além de praticar um esporte, correr em busca da longevidade?

Valdomiro: Primeiramente, aconselho a pessoa a fazer todos os exames médicos. Estando tudo bem, é bom entrar em um grupo de corrida, pois um incentiva o outro.
Eu sempre digo: nunca é tarde demais para começar algum esporte.

Sabine: Com a sua experiência, o que o senhor diria para um corredor que quer fazer de 2026 um ano diferente, mais sustentável, mas não sabe por onde começar?

Valdomiro: Fazer a inscrição para uma prova. Isso fará o corredor treinar internamente, para que possa vencer. Tem muitos corredores e corredoras que sempre dizem: “Valdomiro, graças a ti eu sou maratonista”. Graças a esse meu incentivo, muitos estão correndo hoje bem as maratonas.

Sabine: Por tudo o que já viveu na corrida, existe alguma prova, distância ou momento que o senhor sonha em vivenciar – ou até reviver – na corrida?

Valdomiro: Eu acho que seria a Maratona de Tóquio, pois, no ano retrasado, em 2024, eu corri em Tóquio, onde consegui a sexta major, ou seja, a mandala. Para mim, foi uma grande satisfação, pois fui o mais idoso que conseguiu a mandala, a sexta major. Isso me deixou muito feliz. Fui cumprimentado por muitas pessoas. Fiz um quadro, e a mandala está pendurada na parede. Então, talvez seria essa prova que eu gostaria de repetir, mas não sei se vai dar… é muito longe e muita despesa.

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Sabine Weiler

Sabine Weiler

Jornalista (Time Runners)

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