No universo da medicina esportiva, cuidar de atletas vai muito além de tratar lesões. Exige escuta, conhecimento científico, experiência prática e, muitas vezes, sensibilidade para entender os desafios físicos e emocionais que fazem parte da vida de quem se movimenta.
A Dra. Ana Paula Simões conhece bem esse cenário por dentro. Ortopedista e traumatologista do esporte, professora e especialista em lesões do pé e tornozelo, ela construiu uma trajetória sólida na medicina esportiva brasileira. Foi médica da seleção brasileira de futebol por uma década, participou de Jogos Olímpicos e se tornou a primeira mulher a presidir a Sociedade Paulista de Medicina do Exercício e do Esporte.
Mas sua relação com o esporte começou muito antes dos consultórios e centros médicos. Ex-nadadora do Corinthians, Ana Paula entrou na medicina motivada justamente pelo universo esportivo e, ao longo da carreira, seguiu conectando essas duas paixões.
Hoje, além de tratar atletas e corredores, também vive o esporte na pele: é maratonista e já se prepara para sua sexta maratona.
“Não queria ser uma princesa”.
Runners Brasil — Você começou a entrevista com uma frase muito forte: “Não queria ser uma princesa”. O que essa frase representa para você?
Não queria ser uma princesa, queria ser tudo o que eu quisesse ser. Não era sobre ser perfeita, mulher-maravilha… sempre soube que ela não existe. Sempre quis ser uma mulher real, mas com superpoderes: o poder de ser quem eu quisesse ser.
Ser a mulher que acorda antes do sol para treinar, para dar tempo de voltar e preparar o café da família. A mulher que lidera no consultório, na empresa, na pista, mas ainda precisa provar duas vezes que merece estar ali.
“Quando uma mulher corre, ela não corre sozinha. Ela puxa muitas outras com ela”.
Mas a verdade é simples: nunca foi sobre dar conta de tudo. Foi sobre continuar.
Continuar correndo quando disseram que não era lugar de mulher.
Continuar ocupando espaços onde antes não havia mulheres.
Continuar levantando outras mulheres enquanto avançamos.
Porque correr não é só um esporte. Correr é movimento, é território, é liberdade.
Correr também é ocupar espaço.
Runners Brasil — A corrida também pode ser uma forma de ocupar espaços que historicamente foram negados às mulheres?
Corrida é muito além da performance e do cronômetro. Correr também pode ser um gesto político. Durante muito tempo disseram às mulheres onde elas podiam estar.
Disseram que certas ruas eram perigosas.
Que certos esportes eram “masculinos”.
Que certos cargos não eram para elas.
“Correr ainda não é totalmente seguro para nós, mulheres”.
Quando uma mulher corre, ela não está apenas praticando esporte, ela está ocupando espaço, ela está dizendo ao mundo que aquele espaço também é dela.
Eu vejo isso todos os dias. Como médica do esporte. Como corredora. Como mulher.
A corrida como movimento social
Runners Brasil — O crescimento da presença feminina nas corridas revela uma transformação social?
Quando vemos cada vez mais mulheres cruzando linhas de chegada, não estamos vendo apenas atletas, estamos vendo uma mudança cultural.
Durante décadas o esporte e muitas profissões foram estruturados para homens, hoje somos metade das largadas em muitas provas de corrida.
Mas ainda não somos metade do reconhecimento, do patrocínio ou das lideranças.
“Quando uma menina vê uma mulher ocupando espaço no esporte, ela passa a acreditar que aquele espaço também pode ser dela”.
Mulheres ainda precisam provar mais
Runners Brasil — Mesmo com avanços, mulheres ainda precisam provar mais no esporte e na medicina?
Eu vivi isso em diferentes momentos da minha trajetória: como médica do esporte, ortopedista, mãe, professora e em posições de liderança. E a verdade é que mulheres ainda precisam provar mais.
Precisam estudar mais.
Precisam demonstrar competência mais vezes.
Mas cada mulher que chega a esses espaços abre uma porta.
E essa porta não fecha mais.
O respeito ainda é um desafio
Runners Brasil — Mesmo com mais mulheres correndo, o respeito ainda é um desafio no esporte?
Existe algo curioso no esporte. É cada vez mais comum encontrar mulheres treinando para maratonas, mas ainda não é tão comum encontrar ambientes esportivos onde o respeito seja automático.
Mulheres ainda são julgadas pela aparência.
Pela idade.
Pela forma como se vestem.
Enquanto homens são julgados pelo desempenho.
“No esporte, competência não tem gênero”.
Correr também é liberdade
Runners Brasil — Para muitas mulheres, correr é mais do que exercício. O que a corrida representa para você?
Para muitas mulheres, correr é mais do que exercício.
É liberdade.
É saúde mental.
É um encontro consigo mesma.
Talvez por isso a corrida tenha crescido tanto entre mulheres no mundo inteiro.
“Movimento é transformação, é saúde e é vida”.
Comecei a correr para perder peso, estava obesa após a gestação, não me reconhecia com 95 kg e 1,65 m e precisava me sentir bem comigo mesma.
Será que estava tentando me encaixar? Apenas me encontrei.
Sei que cada uma tem seu motivo, a longevidade está em manter essa chama.
Para as mulheres que estão começando a correr
Runners Brasil — Que mensagem você deixaria para as mulheres que estão começando agora?
Se eu pudesse deixar uma mensagem seria simples:
Corram.
Corram por saúde.
Corram por liberdade.
Corram por prazer.
Mas também corram sabendo que cada passo ajuda a abrir caminho para outras mulheres. O esporte precisa de mais mulheres correndo.
Mas também precisa de mais mulheres liderando, pesquisando, decidindo e transformando o esporte.
Porque quando mulheres ocupam a linha de largada, elas não estão apenas começando uma corrida.
Elas estão ajudando a construir um mundo mais justo.

