Metabolismo Ativo

Quando a corrida encaixa: por que alguns corredores “destravaram” e outros não

Quem convive com corrida de rua já viu esse filme

Por: Dr. Gustavo Cosenza Edição 59 - março 2026
Quando a corrida encaixa: por que alguns corredores “destravaram” e outros não

Duas pessoas treinam com frequência parecida, participam das mesmas provas, seguem planilhas parecidas e até parecem igualmente comprometidas. Mas, em algum momento, uma delas “destrava”. Passa a correr mais leve, recupera melhor, sente mais energia no dia a dia e começa a evoluir com mais naturalidade. A outra segue se sentindo cansada, pesada, travada, como se o corpo nunca acompanhasse totalmente a vontade de melhorar.

De fora, isso pode parecer talento, sorte ou genética. Mas, na maior parte das vezes, essa diferença não nasce de um único fator. Ela aparece da forma como treino, recuperação, alimentação e rotina de vida passam — ou não — a trabalhar juntos.

A realidade é que  o corredor que “destravou” normalmente não encontrou nenhuma fórmula mágica. O que aconteceu foi outra coisa: ele começou a dar ao corpo sinais mais coerentes. Sinais de regularidade, de energia disponível, de recuperação minimamente bem feita e de carga compatível com a própria realidade.

Esse processo depende de múltiplos fatores. O primeiro deles é a própria adaptação ao treinamento aeróbico. Com maior consistência, há aumento da densidade mitocondrial, melhora da capilarização muscular, maior atividade de enzimas oxidativas e melhor capacidade de utilizar gordura em intensidades leves a moderadas. Na prática, isso reduz o custo relativo de determinados ritmos e preserva glicogênio para momentos em que a intensidade sobe. O corredor passa a produzir energia de forma mais eficiente para a mesma demanda externa.

Mas essa adaptação não depende apenas da planilha. Ela exige disponibilidade energética suficiente para acontecer. Muitos corredores amadores mantêm frequência de treino adequada, porém com ingestão insuficiente de carboidrato ao redor das sessões, recuperação tardia ou distribuição proteica inadequada ao longo do dia. O resultado é um cenário em que o estímulo do treino existe, mas o substrato para adaptação e recuperação não acompanha na mesma proporção,Um exemplo disso é um trabalho publicado recentemente (Diaz-lara J. et al,2024) que demonstrou que atrasar o consumo de carboidratos em 3 horas após um treino intenso pode prejudicar em até 30% a performance do treino seguinte.

Mesmo sem manifestações clínicas exuberantes, a baixa disponibilidade energética pode se traduzir em pior qualidade de treino, maior percepção subjetiva de esforço, queda de rendimento, lentificação da recuperação e maior vulnerabilidade a lesões. Entenda que  Treinos são estímulos ao organismo e só serão produtivos se forem adequadamente absorvidos pelo organismo e traduzidos em adaptação, além disso, lembre-se que lesões prejudicam a constância e a adaptação só ocorre com constância.

A força muscular também tem papel decisivo nesse processo. Corredores com menor capacidade de força e menor eficiência neuromuscular frequentemente apresentam maior custo energético para sustentar o mesmo pace. Isso significa que, para uma mesma velocidade, gastam mais energia, recrutam pior a musculatura e acumulam mais fadiga periférica. Em muitos casos, o que parece um problema exclusivamente cardiovascular ou nutricional também envolve baixa economia de corrida e deficiência de força aplicada ao gesto esportivo.

Além disso, fatores extra-treino modulam fortemente essa percepção de energia. Sono insuficiente, estresse crônico, alta carga cognitiva e rotina profissional intensa afetam regulação autonômica, recuperação tecidual, controle de apetite, sensibilidade à insulina e disposição subjetiva. Ou seja, o corredor não responde apenas ao treino prescrito, mas ao contexto fisiológico em que esse treino é executado.

Por isso, dois corredores submetidos a volumes semelhantes podem evoluir de maneira completamente diferente. Um pode estar treinando em ambiente favorável à adaptação, com boa recuperação, ingestão compatível com a demanda e adequada organização da rotina. O outro pode estar apenas acumulando carga sobre um organismo que já opera próximo do limite. No papel, ambos treinam. Na fisiologia, um adapta e o outro apenas suporta.

Talvez seja por isso que alguns corredores parecem ter “virado a chave” enquanto outros seguem rodando em falso. O destrave normalmente acontece quando o organismo deixa de perceber a corrida como um estressor desorganizado e passa a reconhecê-la como um estímulo com o qual consegue se adaptar.Quando isso acontece, a corrida deixa de ser só esforço. Ela começa a render.

Constância vence motivação, bons treinos e boa recuperação.

Dr. Gustavo Cosenza

Dr. Gustavo Cosenza

Endocrinologista (Time Runners)

Endocrinologista Medicina esportiva - UNIFESP Nutrologia