Algumas histórias começam com uma decisão. Outras começam com um exemplo. A minha começou aos 10 anos de idade, ao lado dos meus pais, em uma corrida organizada pelo antigo Banco Real em 2004 na cidade Porto Alegre. Naquele momento, parecia apenas uma brincadeira de domingo. Eu não sabia, mas aquela primeira largada para os meus primeiros 3km definiriam o esporte da minha vida.
Cresci vendo meus pais colocarem os tênis, organizarem seus horários e valorizarem o esporte como parte da rotina. Muitas vezes quando criança acompanhei meu pai indo treinar junto da assessoria em que ele faz parte até hoje – evento raro em um mundo repleto de novas opções. A corrida nunca foi uma imposição — pelo contrário, sempre foi um momento de descontração. A sensação de prender o número na camiseta, o frio na barriga antes da largada e a expectativa de cruzar a linha de chegada despertaram algo que nunca mais se apagou. Ali nascia não apenas um corredor, mas uma mentalidade.
Com o passar dos anos, a corrida deixou de ser apenas um momento em família e passou a ser um desafio pessoal. Vieram os treinos mais estruturados, ingressei na mesma assessoria de corrida dos meus pais e as metas mais ambiciosas e, naturalmente, o desejo de ir além. O primeiro grande marco foi completar 21 quilômetros na tradicional Meia Maratona do Rio de Janeiro em 2010.
Correr aquela distância foi diferente de tudo que eu já tinha vivenciado no esporte. A atmosfera da prova, a energia do público e a mistura de exaustão com euforia ao cruzar a linha de chegada marcaram uma virada. Naquele momento eu ainda não entendia o quão grande era aquele feito para a idade que tinha. Através dessa experiência entendi que era capaz de sustentar o desconforto por mais tempo do que imaginava e que a partir dali as provas de longa distância começaram a me encantar cada vez mais. Meu treinador naquele momento me ensinava sobre constância, estratégia e, principalmente, sobre confiança. Mais do que prescrever treinos, o seu treinador deve ser um amigo em que você confia para ter crescimento no esporte.
Mas o verdadeiro divisor de águas viria alguns anos depois.
Em 2016, uma época em que correr não estava tão na moda como hoje, ainda com 22 anos enquanto cursava Odontologia, decidi enfrentar os 42,195 quilômetros da maratona. Conciliar uma graduação exigente com a preparação para uma prova dessa magnitude foi um desafio que exigiu organização quase cirúrgica. Entre aulas, estágios e provas, encaixava treinos longos, e ia entendendo o significado da disciplina.
Cruzar a linha de chegada daquela primeira maratona foi mais do que concluir uma prova. Foi a confirmação de que consistência supera talento e de que grandes objetivos são construídos quilômetro a quilômetro — assim como uma carreira.
Depois dessa experiência, vieram outras maratonas e diversas provas mais curtas. Porém, algo mudou novamente. Se a corrida me ensinou sobre superação, eu queria expandir meus limites. Após uma lesão óssea por estresse em que fiquei 3 meses sem poder praticar esporte de impacto, o ciclismo e a natação foram os meus aliados. Foi assim então que surgiu o triatlo. A ideia de unir natação, ciclismo e corrida trouxe de volta a sensação da primeira largada aos 10 anos: o frio na barriga diante do desconhecido.
Começar no triatlo significou sair da zona de conforto. Voltar a ser iniciante, aprender novas técnicas, adaptar o corpo e a mente a estímulos diferentes. Mas foi justamente isso que me motivou. O desafio multidisciplinar trouxe uma nova perspectiva sobre desempenho, estratégia e equilíbrio.
Hoje, olhando para trás, percebo que a corrida sempre foi mais do que esporte. Foi escola. Foi terapia. Foi estrutura nos momentos de pressão acadêmica e profissional. Foi conexão com meus pais, amigos e comigo mesmo.
Daquela primeira prova aos 10 anos até as transições do triatlo, a linha que conecta tudo é a mesma: movimento. Não apenas físico, mas pessoal. Seja em provas curtas, maratonas ou provas de Ironman, a corrida me ensinou que evolução não acontece em saltos, mas em passos repetidos com consistência.
E, no fundo, nunca foi apenas sobre correr. Sempre foi sobre continuar.Gabriel Barcelos Só
Gabriel Barcelos Só

