Quando recebemos a pauta do mês, passei um tempo refletindo. Gosto muito de viajar, morei três anos e meio na Austrália e conheci diversos países na Ásia, além de ir para o Quênia participar de um training Camp. Depois de voltar a morar no Brasil, fiz duas viagens de longa duração pela Europa, uma de cinco e outra de seis meses. Esse tipo de experiência sempre me fez refletir muito, tanto na parte positiva quanto nas coisas que não são tão legais assim. Independente do destino, a corrida sempre esteve presente, seja em provas, seja mantendo os treinos.
Diferente dos meus textos tradicionais, que geralmente tratam de treinamento, resolvi escrever sobre uma dessas viagens., trazendo uma forma mais reflexiva, fugindo da tradicional vertente científica.
Começamos (eu e minha esposa, Bibiana) o roteiro sabendo que viveríamos situações e culturas muito diferentes. Passamos pelo caos de Istambul, pelas marcas de guerra na Bósnia, pela perfeição de Vienna, pela viva e caliente Espanha e terminamos na fria, nevada e não muito segura França, última parada antes de voltarmos para o Brasil. Não preciso dizer que foi uma experiência incrível.
Durante os 5 meses, não paramos de trabalhar (ambos trabalhamos remotamente), estudar, treinar e manter todas as outras tarefas diárias. Porém, percebemos que nossa produtividade, criatividade e qualidade de vida tiveram muitas variações. Tendemos a ficar na superfície e pensar que “hoje não estou a fim” ou “inspirado”, mas desta vez decidi aprofundar um pouco mais a reflexão e perceber os motivos de render mais ou menos, seja em questões físicas, cognitivas ou emocionais. Por coincidência, a Bibi começou a ler um livro chamado “Onde nascem os gênios”, que trata um pouco sobre esse assunto. Comecei a ler também, para tentar entender as características das cidades que produziram a maior quantidade de gênios na história. Entender o que inspirou os pensadores mais brilhantes talvez possa me ajudar a organizar minha própria casa, o que me tornaria mais produtivo, criativo e até feliz.
Um dos momentos de maior produtividade e felicidade da viagem foi em Vienna. Eu sei, é mais fácil se sentir bem em um local seguro, limpo, organizado, com transporte público de qualidade e cheio de parques para treinar. Mas não é só isso. Nosso apartamento tinha janelas gigantescas que iam até o teto, deixando entrar muita luz. A cidade é muito “caminhável”, fazendo com que uma ida no mercado vire um passeio turístico e cultural, passando por parques e ruas bem cuidadas, pessoas falando várias línguas e restaurantes de todos os lugares do mundo. Além disso, a capital da Áustria é conhecida como a cidade da música, então é normal passar por pessoas tocando piano e bandas de jazz nas feiras e locais públicos. Na terra de Mozart, ir aos concertos que acontecem diariamente é cultural, me fez até a ler e tentar entender sobre as quatro estações de Vivaldi após um concerto de violinos.
Depois da Áustria, fomos para a Espanha. Valência tem parques por todos os lados, incluindo o Turia Park, 9km de área verde bem no meio da cidade. Tivemos a sorte de pegar sol todos os dias que estivemos por lá. A cidade respira esporte, e ali fiz o melhor treino de 30km da minha vida, que me deu confiança para buscar o RP nos 42km na Maratona da cidade. Decidimos ficar um pouco mais afastados do centro pelos valores de acomodação, e conseguimos um apartamento bem legal com vista para o mar. Por mais legal que fosse, percebi minha produtividade caindo por dois motivos: mesa e cadeira desconfortáveis, e bairro quase deserto por ser inverno e local de “casa de praia” dos Valencianos. Acredito que um dos motivos de eu ter feito uma boa maratona, além do treinamento, foi o ambiente criado pela organização e pelo acolhimento da cidade de Valência. Excelente evento, trecho muito bem pensado e as pessoas na rua, torcendo genuinamente pelos corredores desconhecidos. Ali, durante a prova, tive vários momentos de felicidade extrema. Poder praticar a atividade que amo, passar por lindas ruas e parques, o sol brilhando no céu, 31mil pessoas correndo e outras dezenas de milhares torcendo. Cenário inspirador, cognitivamente, emocionalmente e fisicamente.
Lembrei de quando começamos que viagem, pela Turquia. Ficamos 30 dias em Istambul, e lá foi muito difícil trabalhar e treinar. Além do calor extremo e falta de locais de treino, a cidade é um caos, e a sensação de que alguém está sempre tentando tirar vantagem reduziram muito a produtividade. Na minha visão, segurança e conforto fazem parte da base da pirâmide de necessidades básicas para desempenhar nosso melhor.
Essa viagem, a maratona e o livro me mostraram que, se eu quiser produzir o meu melhor, preciso preparar o ambiente para isso. Além de cadeira confortável, café de qualidade, muita luz, internet rápida e tempo para fazer as coisas, gosto da parte do livro que diz que os pensadores gregos faziam caminhadas diárias para buscar inspiração (no meu caso, saio para correr, hehehe), e também acho essencial a exposição à outras culturas e formas de pensar, seja por música, textos, comidas diferentes e pessoas com outras visões, assim como novas experiências, onde fazemos algo que nunca havíamos feito antes, nos mostrando outros pontos de vista e mudando a forma como vemos as coisas. Correr provas em locais diferentes e se experimentar em distâncias pode nos expor a um período de treinamento diferente, mais uma oportunidade para autoconhecimento. Os autores também citam que ter dificuldades é importante, pois é aí que nos adaptamos e melhoramos nossa criatividade. Afinal, se você não tem um problema para resolver, não é preciso se esforçar muito.
Tendemos a nos cobrar muito, mas nem sempre nos damos a condição necessária para atender às nossas próprias expectativas. Sono, alimentação e atividade física estão em dia? Sem isso, dificilmente vamos desempenhar nosso melhor. Depois, que tal avaliar o ambiente? Tem bastante luz no escritório ou seria melhor mudar a mesa de lugar ou comprar outra lâmpada? A cadeira é confortável, com boa altura para o computador? A roupa de treino está confortável, ou precisa comprar algo novo? Os treinos são sempre no mesmo lugar, ou consegue variar às vezes? Talvez, um pequeno ajuste em alguma destas rotinas pode fazer diferença gigantesca na qualidade do seu dia e na sua performance física, emocional e cognitiva.
Espero que esse texto te faça avaliar o ambiente como me fez avaliar o meu. Às vezes, o que nos limita não é falta de vontade ou de talento, você apenas pode não estar tendo as condições ideias para desempenhar seu melhor, seja fisicamente ou cognitivamente. Construir esse ambiente favorável depende majoritariamente de você.
Com carinho.

