O turismo esportivo tem crescido significativamente nos últimos anos, e um dos segmentos que mais se destaca é o de corrida de rua. Maratonas e meias-maratonas atraem milhares de corredores para destinos nacionais e internacionais, com objetivos que passam pela busca de experiências, de desafios pessoais, pela integração entre lazer e esporte, a vivência de provas icônicas e inclusive a produção de conteúdo digital.
O aumento da procura por esse tipo de turismo deve continuar crescendo com a valorização de experiências e a busca por eventos diferenciados. Com isso, há um mercado em expansão, junto com os prós e contras disso. Se por um lado temos empresas e profissionais sérios assessorando essas viagens e organizando os eventos, por outro há o risco de se cair em negócios oportunistas e que colocam a saúde e a vida das pessoas em risco. O que torna essencial uma preparação mais atenta.
SOBRE A PREPARAÇÃO
Aqui vou traçar um paralelo com a carreira, através de um conceito importante da área e que podemos utilizar também na preparação de viagens esportivas. Estou falando do conceito de adaptabilidade de carreira.
Para ter um pouco de contexto, ele foi proposto inicialmente pelos autores Donald Super e Knasel em 1981, e diz respeito à capacidade de se reinventar e se ajustar a mudanças no ambiente profissional, sendo uma característica importante para enfrentar os desafios de carreira. Alguém com alta adaptabilidade, avaliada através de instrumentos específicos, apresenta maior prontidão e recursos para lidar com tarefas atuais e previstas no contexto de trabalho.
Há quatro dimensões dentro da adaptabilidade: a preocupação, o controle, a curiosidade e a confiança. E é nisso que quero me deter para a nossa conversa.
- Preocupação: é uma competência de planejamento. Refere-se à capacidade de antecipar o futuro profissional e agir de forma proativa para garantir uma trajetória satisfatória. É um sinal de engajamento e responsabilidade com o próprio desenvolvimento. No contexto de turismo de esporte que estamos falando, pode-se traduzir para atitudes de exploração de possibilidades (que lugares são mais apropriados para as minhas condições, que empresas prestam assessoria, que tipo de preparação física é importante ter, que tipo de suporte o evento oferece na necessidade de atendimento médico, mapear pessoas que já tiveram a mesma experiência e podem compartilhar informações, etc). Ou seja, envolve estar atento ao futuro, agir com planejamento e se preparar para mudanças antes que elas se tornem urgentes.
- Controle: é uma competência de escolha. Significa não apenas reagir a oportunidades e desafios, mas escolher agir de forma intencional para direcionar sua própria carreira. Pessoas com essa característica tendem a ser mais autônomas, confiantes e resilientes diante das mudanças. Trazendo para o contexto que estamos abordando, seria por exemplo buscar as informações sem depender apenas da assessoria ou agência contratada, mas ativamente também pesquisar aquela realidade. Não esperar pelas informações, mas ir na busca delas. Significa ser protagonista do próprio futuro, tomando decisões estratégicas e não apenas reagindo às situações.
- Curiosidade: é uma competência de exploração. A curiosidade permite que o indivíduo descubra novas oportunidades, se adapte às transformações e amplie seu repertório de conhecimento. Pessoas com essa característica tendem a ser mais inovadoras, proativas e flexíveis. Como exemplos para o nosso contexto podemos citar ir conversar com outros atletas que já fizeram a mesma prova ou que já utilizaram a mesma assessoria que você quer contratar. Ou ainda, buscar testar e entender antes qual a suplementação que melhor se adapta ao seu organismo (aquela que tende a não dar a danada dor de barriga na prova, sabe?!). Explorar conteúdos na internet sobre roteiros e outras experiências também são válidos aqui. A curiosidade permite que você esteja aprendendo e se reinventando, e te tornando mais preparado para lidar com as mudanças e encontrar novas possibilidades.
- Confiança: é uma competência de resolução de problemas. Refere-se à capacidade de acreditar em si mesmo e em sua habilidade de superar desafios e alcançar objetivos. Está diretamente ligada à autoeficácia, ou seja, uma crença de que se pode executar ações adequadas para ter sucesso. Sem confiança, mesmo alguém altamente capacitado pode hesitar diante de novas oportunidades ou desistir diante de dificuldades. Enfrentar desafios com atitude positiva, identificar e celebrar suas melhorias, se preparar para as situações, ver os erros como oportunidades de aprendizado e melhoria e assumir responsabilidades são exemplos de como desenvolvê-la. A confiança permite que a pessoa enfrente mudanças com mais segurança, tome decisões ousadas e persista diante dos desafios. Desenvolver essa dimensão é essencial para crescer e aproveitar novas oportunidades.
E QUANDO NÃO SAI COMO PLANEJADO?
Mesmo dando atenção ao que vimos até aqui, sempre há o risco dos imprevistos. Eles são reduzidos com uma boa preparação, mas não excluídos. E aí sentimentos como frustração, raiva, tristeza ou medo podem aparecer.
Nesse caso, é importante aceitar a realidade como ela é, sem tentar negar, evitar ou resistir a ela. Isso não significa resignação ou passividade, mas sim abrir espaço para a dor sem deixar que ela controle sua vida. E dentro do que está no seu controle, retornar ao que você aprendeu no seu planejamento de viagem.
Você pode, por exemplo, se perguntar: “Se eu não tentasse lutar contra isso agora, o que eu poderia fazer que é importante para mim?”. Ou em vez de pensar “Sou um fracasso”, reformular a frase para “Estou tendo o pensamento de que sou um fracasso”. Isso ajuda a criar distância e reduzir o impacto negativo.
Gosto da seguinte metáfora: Imagine que você está diante de uma porta trancada. Você pode continuar empurrando com força (resistindo) ou aceitar que ela está fechada e procurar outro caminho.
É sobre parar de lutar contra o que não pode ser mudado e agir com propósito. Isso significa considerar que o sofrimento faz parte da experiência humana e escolher viver de forma comprometida com seus valores, mesmo diante de dificuldades. Não significa gostar do sofrimento, mas parar de gastar energia resistindo a ele e, em vez disso, direcionar essa energia para viver uma vida com mais propósito, em um compromisso contínuo de permitir que pensamentos e emoções difíceis existam sem que eles ditem suas ações. Não é fácil, mas é possível e treinável.
APRENDIZADOS
E mesmo tendo muitos imprevistos, apesar do planejamento, fazer um balanço dos aprendizados ajudará a elaborar a experiência quando negativa. Afinal, tudo é repertório.
A superação de medos e limites ao enfrentar desafios físicos e culturais são importantes no desenvolvimento de competências como resiliência, adaptabilidade, inteligência emocional, disciplina e foco. E é importante esse exercício de autorreflexão, pois é pensando sobre o que vivemos que vamos nos tornando pessoas e profissionais mais interessantes.

