Janeiro costuma trazer uma mistura curiosa de empolgação com pressão. Todo mundo falando de metas, planos, mudanças. Parece que se você não tiver o ano inteiro resolvido nas primeiras semanas, já saiu atrasado.
Com o tempo, aprendi que minhas melhores decisões nunca nasceram sentado diante de um planner. Elas vieram em movimento. Vieram correndo.
A corrida virou minha bússola mental.
Quando a cabeça não acompanha o cargo
Lembro claramente de um dia específico. Eu tinha uma reunião com o CEO da empresa para apresentar um projeto no qual eu havia me empenhado ao máximo. Estava convicto de que seria um sucesso.
A reunião começou. Ele ouviu, analisou e foi direto: disse que o projeto não estava bom. Apontou falhas, sugeriu ajustes e deixou claro que daquele jeito não seguiria.
Na frente dele, fiz o que qualquer profissional maduro faria. Concordei, agradeci o feedback, mantive a postura. Por dentro, a história era outra. Eu queimava de raiva. Saí da sala com aquela sensação conhecida de injustiça, achando que ele queria me sabotar ou não tinha entendido o meu esforço.
Naquele dia, por coincidência ou não, havia um treino longo na planilha. Quinze quilômetros.
Correndo com sangue nos olhos
Saí para correr com a cabeça em ebulição. Cada passada martelava as frases que eu tinha ouvido na reunião. Não era um treino leve, nem mentalmente bonito. Era raiva pura transformada em movimento.
O curioso é que foi um dos melhores paces que já tinha feito até então. O corpo estava afiado, mas a mente em processo.
Por volta do quilômetro dez, algo mudou. A respiração estabilizou. A raiva começou a perder força. E no lugar dela surgiu uma pergunta simples: “E se ele estiver certo?”
Não foi um pensamento confortável. Mas foi honesto.
Quando completei os quinze quilômetros, a conclusão estava clara. O projeto realmente precisava de ajustes. Não por falta de esforço, mas por excesso de apego. Eu estava defendendo mais o meu ego do que a qualidade da entrega.
No dia seguinte , refiz o projeto com as alterações sugeridas. O resultado foi um sucesso.
A corrida não decide por você, mas limpa o caminho
Essa experiência me ensinou algo que carrego até hoje, especialmente no início de cada ano: a corrida não dá respostas mágicas. Ela tira o ruído.
Em janeiro, quando tudo parece urgente e confuso, correr ajuda a separar emoção de razão. Ajuda a entender se estamos reagindo por orgulho, medo ou clareza.
Na corrida, o corpo entra em ritmo e a mente, sem distrações, começa a conversar de verdade com você. Sem personagens. Sem máscaras.
Leve o ano no ritmo da respiração
Organizar mentalmente o ano não é ter todas as respostas. É criar espaço para escutá-las quando elas surgem.
Use alguns treinos como reuniões internas. Sem música. Sem celular. Apenas você, o passo e a respiração.
Pergunte durante a sua corrida:
O que eu estou defendendo por ego?
O que estou evitando por medo?
Onde preciso ajustar o ritmo para não quebrar lá na frente?
Assim como na corrida, decisões importantes não aparecem no sprint. Elas surgem no ritmo constante, quando a mente para de brigar e começa a entender.
Se 2026 tiver que ter uma direção clara, que ela venha assim: passada após passada, com menos ruído e mais verdade.
Porque no fim, tanto na corrida quanto na carreira, quem aprende a ajustar o ritmo no caminho costuma chegar mais longe.

