A corrida é um dos esportes mais completos para a saúde: fortalece o coração, ajuda a regular o peso, melhora o sono, a autoestima e o equilíbrio emocional — e ainda aumenta a longevidade. Poucos minutos viram consistência, e consistência vira qualidade de vida. No mês em que a saúde do homem entra no foco da prevenção, a Runners Brasil conversou com o urologista Dr. Mauro Costa, sobre cuidados e alertas para quem quer correr por muitos anos. Filho de professor de educação física, o médico de Passo Fundo (RS) adotou a corrida por incentivo da esposa corredora. Na entrevista, ele fala sobre o tabu do exame de próstata, como ajustar a semana dos exames sem quebrar o treino, os sinais que pedem consulta e como vencer mitos para transformar a prevenção na sua próxima meta de prova — orientação prática para você seguir correndo, e por mais tempo.
Sabine Weiler: Qual é a sua relação com a corrida e o que ela lhe ensinou sobre hábitos saudáveis e consistência?
Mauro Costa: A minha relação com o esporte iniciou desde cedo com o incentivo do meu pai que é professor de educação física. Sempre pratiquei esportes coletivos como futebol e basquete, desde a escola até o final da faculdade. Nesse período da minha vida as corridas eram mais esporádicas. Porém, com o passar do tempo a profissão foi tomando mais tempo do meu dia e os horários começaram a ficar apertados, então, por incentivo da minha esposa, que já corria há mais de 15 anos, eu inclui a corrida no meu dia a dia. A corrida, diferentemente de qualquer outro esporte, só depende de você e de mais nada. Depende da sua força de vontade, da disciplina, do foco, da concentração e, principalmente, conhecer e negociar consigo mesmo os limites do seu corpo. A consistência nos treinos é o que te faz chegar mais longe, mas se por trás disso não tiver uma boa alimentação, qualidade de sono, descanso e reforço muscular, os seus treinos com certeza vão ser mais sofridos e os resultados vão demorar mais a chegar.
Sabine: Quais benefícios concretos a corrida traz para a saúde masculina (cardiometabólica, mental, peso, inflamação) e como isso se conecta à prevenção ao longo da vida?
Mauro: A corrida é uma das atividades físicas mais completas e acessíveis, com efeitos positivos amplos e bem documentados sobre a saúde. Correr melhora a função cardiovascular, reduzindo a pressão arterial e aumentando a capacidade cardiorrespiratória. Ajuda a reduzir o risco de infarto e AVC. Melhora o controle glicêmico e lipídico. Favorece o equilíbrio hormonal ajudando a aumentar e manter níveis saudáveis de Testosterona. Além disso, a corrida é uma das atividades com maior gasto calórico por tempo de prática, auxiliando na redução da gordura visceral e melhora da massa muscular e densidade óssea. Estimulando a liberação de endorfina, serotonina e dopamina, a corrida também melhora a saúde mental e o bem-estar de quem pratica esta atividade física. Com isso, ajuda a melhorar a qualidade do sono, a autoestima e o equilíbrio emocional, reduzindo o estresse crônico. Praticar corrida de forma regular ao longo dos anos pode prolongar a sua expectativa de vida e retardar o declínio cognitivo e funcional do corpo.
Sabine: O que a campanha Novembro Azul já mudou na prática — e o que ainda falta?
Mauro: A campanha ajudou muito a quebrar o tabu em torno do exame de próstata e trouxe o tema da prevenção para a conversa do dia a dia. Hoje os homens falam mais sobre isso, procuram o médico com menos resistência. O que ainda falta é transformar essa conscientização em atitude contínua — não só em novembro, mas o ano todo.
Sabine: Quais são as principais barreiras para os homens fazerem prevenção e como superá-las?
Mauro: A principal barreira ainda é o medo. Quando eu falo medo, não é só medo do exame de toque retal. O que os homens mais temem é de serem diagnosticados com alguma doença. Soma-se a isso a falta de tempo e o hábito de só procurar o médico quando sente algo. Do lado do urologista, nosso papel é mostrar que prevenção é cuidado, não sofrimento, e que detectar algo cedo muda completamente o desfecho.
Sabine: A partir de que idade começar o rastreio e com que frequência, considerando fatores de risco?
Mauro: Para a maioria dos homens, a partir dos 50 anos. Já quem tem histórico familiar de câncer de próstata ou é afrodescendente, deve começar aos 45. Se os exames iniciais estiverem normais, a reavaliação costuma ser anual.
Sabine: Qual deve ser o checklist anual do corredor: exames essenciais, periodicidade e sinais de alerta?
Mauro: Além do PSA e do exame clínico, é importante avaliar função renal, colesterol, glicemia, hormônios e um eletrocardiograma. Para quem treina forte, um check-up cardiológico anual é fundamental. Além disso, é muito importante ressaltar a importância de um acompanhamento nutricional e de um educador físico capacitado para um melhor resultado nos seus treinos.
Sabine: Quais sinais durante ou após a corrida pedem avaliação rápida com o médico?
Mauro: Dor torácica, falta de ar fora do padrão, palpitações, tontura ou desmaios. Esses sinais merecem atenção imediata! Além disso, é muito importante lembrar que devemos respeitar os limites do nosso corpo, descansar quando necessário, treinar leve quando orientado pelo treinador e não ignorar a orientação médica de repouso quando aparecer alguma lesão.
Sabine: Como diferenciar uma dor pélvica típica de treino de algo que merece consulta urológica?
Mauro: A dor muscular melhora com repouso e costuma estar associada ao esforço. Já dores persistentes, ardência para urinar, jato urinário fraco ou presença de sangue na urina não são normais e precisam ser avaliadas. Além disso, dor lombar intensa unilateral, com urina escura ou com presença de sangue, merecem avaliação com brevidade no consultório urológico.
Sabine: Na semana do PSA, o que evitar e como organizar a agenda para não gerar falsos alarmes (corridas fortes, ciclismo, treino de força)?
Mauro: Evitar atividade sexual, corrida de alta intensidade, ciclismo e treino de perna muito pesado nas 48 horas antes do exame. Tudo isso pode elevar o PSA de forma transitória.
Sabine: Suplementos comuns de corredor (cafeína, creatina, nitratos etc.) exigem algum ajuste antes dos exames?
Mauro: Em geral, não. Mas é importante informar ao médico o que está sendo usado, especialmente creatina e pré-treinos, que podem interferir em exames renais.
Sabine: Fora da pista, quais três hábitos têm maior impacto na saúde masculina e melhoram a performance?
Mauro: Dormir bem, manter uma alimentação equilibrada e controlar o estresse. Esses três pilares influenciam tanto a saúde hormonal quanto a recuperação muscular e o desempenho.
Sabine: Além dos exames, que orientações práticas ajudam a reduzir o risco de doenças urológicas no dia a dia?
Mauro: Hidratação adequada, evitar e excesso de álcool, manter o peso saudável e praticar atividade física regular. São medidas simples, mas poderosas.
Sabine: Mensagem de linha de chegada: como vencer vergonha/medo de consulta e transformar prevenção em “meta de prova”?
Mauro: Encare o check-up como parte do treino — um investimento em longevidade. Quem cuida da saúde hoje, garante mais quilômetros de vida pela frente.

