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Nini Oliveira: correndo pelo mundo trail

Das quadras de vôlei às trilhas mais desafiadoras do planeta, Nínive Oliveira, a Nini, acumulou dezenas de ultras pelo mundo e foi, em 2023, a primeira mulher latino-americana na lendária UTMB CCC, na França. Nesta entrevista, ela fala da mãe que a levou para a corrida, do lado B de viver viajando e da lição que a montanha ensina: nem tudo está no seu controle.

Por: Gabriel Renaud Edição 65 - setembro 2026
Nini Oliveira: correndo pelo mundo trail

Das quadras de vôlei às trilhas mais desafiadoras do planeta, Nínive Oliveira, a Nini, acumulou dezenas de ultras pelo mundo e foi, em 2023, a primeira mulher latino-americana na lendária UTMB CCC, na França. Nesta entrevista, ela fala da mãe que a levou para a corrida, do lado B de viver viajando e da lição que a montanha ensina: nem tudo está no seu controle.

Na Bíblia, Nínive foi uma cidade marcada pela força e capacidade de se transformar para emergir ainda mais poderosa. Quando registraram a filha com esse nome, os pais de Nínive Oliveira, a Nini, não imaginavam o tamanho do simbolismo desse nome na vida dela.

Nini não cresceu sonhando com cristas congeladas ou descidas técnicas de montanha. Na infância e adolescência, ela jogava vôlei. A corrida só ficou mais presente aos 22 anos, de forma despretensiosa, ao fazer companhia para sua mãe correndo na rua. Sem busca por performance ou redes sociais, só mãe e filha passando um tempo juntas.

Em 2017, trocou a cidade de São Paulo pelo mar e serras de Santa Catarina. Formada em Educação Física e pós-graduada em Fisiologia do Exercício, Nini uniu a ciência do corpo ao amor pelas trilhas. Acumulou dezenas de ultras pelo planeta, sendo a primeira mulher latino-americana no ano de 2023 da lendária UTMB CCC na França, e possui uma carreira de respeito internacional, fruto de muito trabalho, dentro e fora da montanha.

A semente e o primeiro passo

Como você conheceu a corrida?

Eu comecei a correr com a minha mãe. Ela tinha a corrida como um hobby, corria por puro prazer. Comecei a acompanhá-la em algumas corridas e fui pegando gosto aos poucos. Mas isso foi há 15 anos, o mundo da corrida era bem diferente, sem redes sociais (risos).

Em 2015, depois de dois anos de tratamento contra o câncer, minha mãe faleceu. Seis meses depois, após ter um sonho com ela, resolvi me inscrever na minha primeira ultramaratona, a Bertioga-Maresias. Naquela linha de chegada, eu me apaixonei completamente pelas longas distâncias! Não fazia ideia de como, mas sabia que esse esporte faria parte da minha vida para sempre.

E hoje, quem é a sua maior fonte de inspiração dentro e fora do esporte?

Fora do esporte, meu pai. Dentro do esporte, tenho muitos ídolos e amigos. Tenho a sorte de conviver com referências do Trail, como a Ruth Croft. Fora do Trail Running, sou apaixonada por tênis, e o Novak Djokovic é um ídolo: um dos maiores atletas de todos os tempos.

Se pudesse voltar no tempo e encontrar a Nini da sua primeira prova internacional em 2017, o que diria a ela?

“Prepara-te, porque a jornada vai ser muito longa e desafiadora! Haverá muito mais derrotas do que vitórias, mas nunca pense em desistir, porque vai valer a pena demais.” E algo muito importante: aprenda a se adaptar às adversidades e a conviver com o futuro incerto, especialmente no lado financeiro. Mas confia, porque vai dar certo!

Nini nos mostrou que viver de esporte de montanha no Brasil exige tanto preparo físico quanto pés no chão.

O topo também é delas

Ao se consolidar na elite do Trail Running, Nini rompeu barreiras em um ambiente historicamente duro. Ela encara a representatividade com a simplicidade de quem apenas escolheu construir o próprio caminho.

Você se tornou referência no Trail dentro e fora do Brasil. Qual é a sensação de mostrar para outras mulheres que a montanha também é delas?

Desde que me apaixonei pelas longas distâncias, nunca mais consegui ficar um dia sequer longe disso. Para mim, foi tudo muito natural. Essa é a minha vida. Nunca fiz nada pensando em virar referência ou mostrar aos outros como era minha rotina.

Minhas escolhas sempre foram voltadas para o meu desenvolvimento como atleta e ser humano. Quando você busca a vida dos seus sonhos, acho que naturalmente acaba inspirando quem está ao redor. Fico muito feliz em ser referência. Estamos no melhor momento da história para o Trail Running feminino, e é incrível viver isso de perto.

Estamos no melhor momento da história para o Trail Running feminino, e é incrível viver isso de perto.

O que você diria para uma menina que sonha em explorar o mundo correndo, mas acha isso distante demais?

É totalmente possível! Apenas comece. Dê o seu melhor dia após dia, que as portas se abrirão na hora certa. E se eu puder dar duas dicas práticas para qualquer atleta iniciante hoje: aprenda a trabalhar com as redes sociais e estude inglês.

O lado B de viver o sonho

Viagens para os Alpes, cenários de filme na Capadócia e a atmosfera única da Nova Zelândia. No feed, um sonho. Na rotina, o cansaço real de quem passa muito tempo lidando com conexões, planejamento e malas ao longo das viagens.

Tirando as medalhas e os tempos, qual é a sensação real de ver o mundo através do Trail?

A melhor possível! Viver a montanha correndo e explorando novos lugares é a essência do esporte. Você tem que, primeiro, se apaixonar por isso. Depois vêm a rotina de treinos, as provas e os resultados.

Nas provas mais selvagens, quando o cansaço bate forte, o que passa pela sua cabeça?

Sinceramente? Não penso em muita coisa. Minha mente fica 100% focada em cruzar a linha de chegada o mais rápido possível. Parece loucura, mas não dá tempo de pensar em nada.

E como é viver viajando pelo mundo como atleta profissional?

É incrível, estou vivendo o meu sonho e sou grata a isso todos os dias. Mas é bem cansativo (risos). Viajar muito é legal nos primeiros anos, mas depois você começa a sentir. Você sonha com a sua casa e não aguenta mais ver aeroporto. Por outro lado, você aprende a tomar decisões mais inteligentes e a programar melhor as viagens. Essa bagagem de experiência conta muito.

Fisiologia, empatia e o incontrolável

Pós-graduada em Fisiologia do Exercício, Nini entende a mecânica do esforço como poucos. Mas, atuando como Running Coach, sabe que a teoria só funciona se houver escuta e humanidade.

Você tem formação em Fisiologia. Em qual momento na trilha a teoria precisa dar lugar à intuição e à força bruta?

Tem espaço para as duas coisas. A ciência e o treinamento são fundamentais para te preparar, mas se o corpo não estiver pronto, a mente não chega sozinha se o físico “morrer”, né? Ciência, experiência e intuição precisam trabalhar juntas.

Como treinadora, o que é mais difícil: controlar a sua mente numa ultra ou ensinar um aluno a perder o medo?

Ensinar outras pessoas é sempre um desafio porque cada ser humano tem uma história diferente. O maior erro de um treinador é ignorar a individualidade. Para ser um bom profissional, só andar com o livro de fisiologia debaixo do braço não basta; você precisa saber lidar com pessoas. Em alguns momentos, você só precisa ser um ser humano falando com outro ser humano. Muitas coisas não se ensinam: eu guio meus alunos para que eles vivam as próprias experiências da forma menos traumática possível e aprendam sozinhos.

O maior erro de um treinador é ignorar a individualidade.

Como você faz para manter essa chama acesa e continuar apaixonada pela corrida depois de tanto tempo?

Para mim, estou só começando (risos)! Não consigo nem imaginar a minha vida longe disso.

O aprendizado da montanha

Nini Oliveira é a prova de que a alta performance não precisa ser distante da realidade. Ela é a profissional que estuda o corpo, a mulher que trocou o conforto da capital pela vida perto da natureza, a filha que transformou a saudade em passos longos e a treinadora que enxerga gente por trás de cada planilha.

Ao ser questionada sobre a maior lição que acumula após encarar o topo do mundo, Nini resume a essência da sua jornada com a simplicidade de quem aprendeu a respeitar o terreno:

“A montanha te ensina uma das mais valiosas lições da vida: nem tudo está no seu controle. Aprenda a controlar o controlável da melhor forma que puder, e a lidar com a imprevisibilidade do incontrolável da melhor forma que puder. A montanha é isso. E a vida também.”

Das quadras de vôlei na juventude às trilhas mais desafiadoras do planeta, Nini segue abrindo caminhos e está só começando. Não apenas correndo o mundo, mas lembrando a cada corredor que o mais importante não é o pace ou as medalhas, mas a coragem de continuar em frente.

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Gabriel Renaud

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Copywriter (Time Runners)

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