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Na Batida dos Passos: Quando o Brasil Começou a Correr Junto

Por: Pablo Mateus Edição 50 - junho 2025
Na Batida dos Passos: Quando o Brasil Começou a Correr Junto

Por volta das seis da manhã, o silêncio da cidade é cortado por um som sutil, quase imperceptível a quem passa de carro ou ainda dorme: o atrito leve de dezenas de tênis contra o chão. Em um parque qualquer de São Paulo, Salvador, Manaus ou Porto Alegre, grupos se formam. Não há grandes bandeiras, nem palcos, nem arquibancadas. Há gente comum com um desejo incomum: correr — e não correr sozinhos.

O que antes era visto como um exercício solitário e repetitivo, hoje ganha contornos muito mais profundos. Correr virou expressão, companhia, manifesto. Virou pertencimento. E é nessa esteira coletiva que o Brasil tem se destacado no cenário mundial: em 2024, o país registrou 2.827 corridas de rua oficiais, um aumento de 29% em relação ao ano anterior. É uma explosão que vai muito além do número de provas. É uma transformação social em curso.

Segundo o relatório global do Strava, o Brasil ocupa hoje a segunda posição no ranking de atletas da plataforma, com mais de 19 milhões de usuários ativos. Mas quem anda pelas ruas já percebe: a corrida tomou as cidades. E, mais do que isso, as comunidades tomaram conta da corrida.

Do Isolamento ao Encontro: A Corrida Como Ponte

Os anos de pandemia deixaram marcas profundas em todos os aspectos da vida social — e a corrida de rua sentiu esse impacto de forma particular. Durante o isolamento, o que restava de liberdade vinha do corpo em movimento. E quando os parques voltaram a abrir, os corredores voltaram também. Mas voltaram com um desejo novo: de não estarem sozinhos.

Foi assim que muitos dos grupos independentes começaram. Um corredor postando o treino no Instagram. Outro marcando no Strava. Um convite por WhatsApp. E quando se percebe, há um coletivo se formando. Às vezes duas pessoas. Às vezes cinquenta. Às vezes uma multidão.

Esses grupos crescem de forma orgânica. Não há regras fixas, nem modelos prontos. Há afinidade. Há vontade. Há movimento.

O Mosaico das Comunidades de Corrida

Cada comunidade carrega uma identidade própria. Algumas são locais, formadas por vizinhos, amigos e familiares. Outras se estruturam por causas: sociais, raciais, feministas, ambientais. Algumas possuem lideranças fortes, planilhas de treino, camisetas, parceiros e até estrutura jurídica. Outras preferem a liberdade dos encontros informais.

Entre os exemplos mais inspiradores está o Vem com Nóis, grupo que atua em comunidades periféricas, promovendo a inclusão por meio da corrida. O coletivo não apenas oferece treinos, mas também assistência, roupas e apoio emocional a novos corredores. Há ainda o grupo Elas Que Voam, exclusivamente feminino, que reúne cerca de 40 mulheres por treino e promove um espaço seguro para todas — desde iniciantes até maratonistas experientes. A divisão por níveis permite acolhimento sem julgamento e crescimento com suporte.

E existem também os grupos com apadrinhamento de grandes marcas, como o Adidas Runners ou o Damn Gang, apoiado pela Nike. Com treinos gratuitos, desafios mensais, eventos especiais e até viagens, esses grupos oferecem experiências que vão além do esporte — são hubs sociais onde o tênis é só o começo da conversa.

Mais do que Esporte: Um Movimento Social em Andamento

O impacto das comunidades de corrida vai muito além do condicionamento físico. Esses grupos se tornaram instrumentos de transformação. Eles combatem o sedentarismo, promovem saúde mental, atuam pela igualdade de gênero, promovem a diversidade e criam redes de solidariedade.

A corrida é acessível: basta um par de tênis (às vezes nem isso). Não exige mensalidade de academia. Não requer equipamentos sofisticados. Mas, quando feita em grupo, oferece algo raro: motivação, acolhimento, incentivo, propósito.

E é esse propósito que transforma: há quem tenha superado depressão, saído de um quadro grave de obesidade, vencido vícios, encontrado amigos, emprego e até novos amores. Há quem corra pela saúde. Há quem corra pela vida.

Do Asfalto ao Social: Quando Correr é Ato de Solidariedade

Muitos desses grupos também se engajam em ações sociais e beneficentes. Arrecadam alimentos, brinquedos, roupas. Organizam corridas solidárias. Estão presentes em campanhas de saúde, em escolas, em comunidades carentes.

Um dos exemplos mais emblemáticos é o Projeto Vida Corrida, liderado pela ex-atleta Simone Alves, que atua na zona sul de São Paulo. O projeto atende crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade e utiliza a corrida como ferramenta de desenvolvimento humano. O esporte é o meio — mas o objetivo é muito maior: autoestima, disciplina, sonho.

ZN Runners: Correndo com Orgulho pela Zona Norte

No coração da capital paulista, um movimento vem ganhando fôlego, rua após rua. O ZN Runners, fundado em julho de 2024 por Jaime Vannucci, Gabriel Rodrigues e Breno Segre, nasceu com uma proposta ousada: dar voz e visibilidade à Zona Norte de São Paulo através da corrida de rua.

Inspirado pelo trabalho do Ibira Runners, no Parque do Ibirapuera, o trio decidiu levar o mesmo espírito para o outro lado da cidade — com a missão clara de criar uma comunidade acessível, não comercial e voltada ao acolhimento. “Não somos assessoria e nem crew. Somos uma comunidade. A primeira criada em prol da Zona Norte”, afirmam.

Mesmo com poucos meses de existência, os números impressionam: em apenas três eventos presenciais, reuniram mais de 500 pessoas e, nas redes sociais, já somam 7 mil corredores conectados à proposta. A comunidade promove treinos por pelotões (caminhada, ritmo leve e forte), desafios de alta performance, encontros interativos e confraternizações — tudo com o objetivo de tornar a corrida um estilo de vida possível para todos.

O diferencial do ZN Runners, no entanto, está no comprometimento social. Todos os seus eventos têm caráter beneficente, arrecadando alimentos, roupas e materiais que são destinados a ONGs e igrejas locais. “A corrida é a porta. A transformação acontece depois”, diz Jaime.

Os relatos emocionam: corredores que superaram a obesidade, venceram a depressão ou encontraram na corrida uma saída para a ansiedade. “Recebemos mensagens todos os dias de pessoas dizendo que a chavinha virou depois do primeiro evento. O esporte é vida!”, afirmam.

E o mercado já os reconheceu: Heineken, Red Bull BR, Caffeine Army, Z2, Ford Sonnervig e Livewell são alguns dos patrocinadores que apostam na força da comunidade. “O mercado está atento. A corrida virou lifestyle. Mas não dá mais para tratar esse público como nos anos 2000. Hoje é sobre conexão, saúde, acolhimento e experiência.”

Entre os maiores desafios enfrentados pelo grupo estão a busca por espaços seguros e apoio da subprefeitura para realizar eventos com estrutura. Ainda assim, o maior orgulho da comunidade é poder levar o nome da Zona Norte para eventos, provas e ações sociais por todo o Brasil. A mensagem é clara: quem corre na Zona Norte, corre com o ZN Runners — independente de crew, assessoria ou ritmo.

Correr Deixa de Ser Solitário

Histórias como a do ZN Runners ilustram o novo momento da corrida de rua no país. Grupos que surgem não apenas pela paixão pelo esporte, mas também por uma necessidade urgente de pertencimento, acolhimento e transformação social.

Em todos os cantos do país, surgem coletivos que entendem o correr como uma linguagem que vai além do corpo: é comunicação, é arte, é reabilitação, é afeto.

Iquine Runners: Da Indústria à Rua, com Orgulho Pernambucano

Em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco, um grupo com uma origem singular mostra que o universo da corrida pode nascer dentro da própria empresa. Criado em dezembro de 2017 por colaboradores da indústria Tintas Iquine, o grupo Iquine Runners é um exemplo de como a cultura corporativa pode se transformar através do esporte.

Hoje, com 49 membros ativos entre 20 e 60 anos, o grupo é liderado por Manoel Souza, consultor técnico da empresa, e se reúne principalmente nos fins de semana, participando também de provas em Recife e região metropolitana. Entre os tipos de treino mais frequentes estão os longões e treinos de velocidade, adaptados à rotina dos participantes.

A missão do grupo é clara: promover saúde, bem-estar e senso de comunidade entre os colaboradores. “O grupo reduz o isolamento, combate o estresse, melhora a autoestima e ainda nos une como equipe”, comenta Manoel.

O senso de pertencimento é estimulado dentro da própria empresa, com ações internas, pesquisas de clima organizacional e incentivo à prática esportiva. Apesar de ainda não contarem com patrocínios esportivos ou ações sociais ativas, o grupo celebra conquistas que vão além da expectativa: integrantes do Iquine Runners já participaram de provas internacionais, como as maratonas de Nova York, Santiago, Porto Alegre, Buenos Aires e Boston.

“O maior desafio tem sido atrair mais colegas da empresa para o esporte. Mas os que entram, ficam. Porque se sentem melhor, mais motivados e mais conectados”, compartilha.

A percepção do grupo sobre o momento da corrida no Brasil é positiva. “A gente vê o crescimento. Basta olhar a Maratona do Rio, com mais de 60 mil corredores. Mas ainda há espaço para crescimento dentro das empresas. O esporte pode ser uma ponte para o engajamento, a saúde e até a produtividade dos funcionários.”

Muito Além do Exercício Físico

Os dois grupos — tão diferentes em origem, mas tão semelhantes em propósito — demonstram o poder que a corrida de rua tem de unir pessoas, quebrar barreiras e reconstruir histórias. Seja numa grande metrópole ou numa fábrica no Nordeste, o que se repete é o mesmo impulso: colocar o corpo em movimento para reencontrar a si mesmo e ao outro.

A corrida não é mais sobre medalha, água e banana no final. Hoje, é sobre escuta, presença e comunidade.

O Olhar do Mercado: As Marcas que Correram Junto

O setor privado, atento ao crescimento das comunidades de corrida, vem se aproximando com estratégias que vão além do patrocínio. As marcas querem participar de forma orgânica e emocional da experiência desses corredores.

A Olympikus, por exemplo, criou o evento “Bota pra Correr”, que leva os participantes a destinos inusitados como o Jalapão e o Pantanal. A ideia é unir produto e experiência — performance e emoção. Já a Asics ampliou sua já conhecida Golden Run para toda a América Latina, promovendo corridas memoráveis com estrutura internacional.

A Fila lançou a Maratona Fila, enquanto a Centauro aposta no evento Desbrava, que inclui experiências presenciais, kits exclusivos e ativações nas lojas físicas. A Netshoes Run foi reformulada e dobrou de tamanho em um ano, com foco na construção de comunidade.

Mais recentemente, até marcas de fora do universo esportivo, como a Granado, criaram suas próprias corridas, como a Corrida Granado Pink, com foco na valorização feminina.

E no digital, as ações ganham força por meio de parcerias com apps como o Strava e o Nike Run Club, com desafios patrocinados e comunidades online que refletem os passos das ruas.

Quer Correr Junto? Escolha com o Coração

Com tantas opções surgindo, como escolher um grupo ideal?

O primeiro passo é entender seus objetivos pessoais. Busca desempenho? Socialização? Apoio emocional? Causas sociais? A partir disso, é possível encontrar grupos compatíveis com seu ritmo — de vida e de treino.

Vale observar:

  • Localização e horários dos encontros;
  • Perfil do grupo (iniciantes, performance, inclusivo);
  • Ambiente emocional (acolhedor ou competitivo demais?);
  • Presença de lideranças capacitadas;
  • Custo-benefício, no caso de assessorias remuneradas.

Há grupos gratuitos, pagos, mistos, abertos, fechados. Há lugar para quem está começando e para quem sonha com maratonas. Há quem corra às 5 da manhã. Há quem prefira às 20h. O importante é encontrar um lugar onde a corrida não seja só exercício — mas um caminho de conexão.

O Brasil Está Correndo Junto — e Mais Longe

O que está em curso no país não é só um boom esportivo. É um movimento cultural. É uma retomada das ruas. É a criação de laços. É uma resposta ao individualismo e ao cansaço mental. É um jeito novo de viver nas cidades.

Se antes o Brasil era conhecido pelo futebol, talvez agora comece a ser lembrado também por outra paixão: a corrida. E, mais do que correr rápido, o país está aprendendo a correr junto.

Pablo Mateus

Pablo Mateus

CEO / Colunista (Time Runners)

Founder / CEO / Economista / Empreendedor