Da roça ao pódio da maior corrida de rua do Brasil. Campeão da São Silvestre de 1997, Emerson Iser Bem é também o único atleta brasileiro a vencer uma etapa de Cross na Europa. Dono de um dos recordes mais antigos do atletismo brasileiro, foi recordista juvenil dos 5000 m aos 19 anos, na Coreia do Sul. Num bate-papo de quase duas horas, o ex-atleta paranaense contou à Runners Brasil como venceu um mito do atletismo mundial, o queniano Paul Tergat.
Como você vê a São Silvestre na sua vida, o grande marco da sua carreira?
Quando corri como atleta, eu não tinha a percepção que tive depois, ao correr como amador, com amigos e alunos. É uma emoção, muito mágica. Aquela subida gigante no final, na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, tem muito a ver com a nossa vida: uma grande subida que você precisa superar para encerrar mais um ciclo. Competir profissionalmente e ter vencido foi um grande marco. Cá estamos, mais de 20 anos depois, falando dessa prova. Devo muito à São Silvestre.
O segundo colocado foi justamente o queniano que você passou na subida da Brigadeiro.
Era o Paul Tergat, que foi o melhor do mundo por muitos anos — eu diria que, naquela época, era mais do que o Kipchoge é hoje. Ter vencido dele valorizou bastante a minha conquista.
O que te fez pensar “eu posso vencer a São Silvestre”?
A estratégia era ficar entre os 10 primeiros — só de africanos havia 17 caras bons, além de uma turma muito boa de brasileiros. Eu nem iria correr, pois estava focado no Cross-Country na Europa, onde em 1996 me tornei o primeiro e único brasileiro a vencer uma prova do gênero. No dia, meu foco era o top 10; quando ficamos num grupo de seis, passei a querer o pódio. Treinávamos muito forte, com Vanderlei Cordeiro, Eduardo Nascimento, Elias Bastos e Leonardo Guedes, e eu não me permitia amarelar. Ao chegar ao centro velho de São Paulo, no km 12, já sabia que estava fazendo uma baita corrida.
E a emoção de cruzar a faixa?
Foi muito rápido, porque eu achava que o Paul Tergat fosse me passar naquela reta — ele era muito mais veloz. Mas entrei na vibe “vou fazer meu 100% até o final” e ele não conseguiu me acompanhar. Coloquei a bandeira do Brasil na camiseta, e a torcida gritando “Brasil, vai Brasil” me deu uma adrenalina enorme. Minha subida na Brigadeiro foi uma das mais fortes que já tive. Quando passei a linha de chegada, veio um turbilhão de alegria. É a prova mais importante e desejada do país.
O que te levou a correr?
Nasci em Santo Antônio do Sudoeste (PR), na zona rural, e entregava leite de bicicleta com 10, 11 anos. Gostava de futebol e handebol, mas, após um acidente em que perdi a ponta de um dedo, não pude mais praticar esportes de contato. Num sábado, vi uma corrida que saía da cidade até a Argentina e voltava; fiquei hipnotizado e decidi, aos 12 anos, que esse seria o meu esporte. Em 1988 fiz 22 provas e só perdi duas. Logo recebi uma bolsa do Governo do Paraná, fui para Londrina e depois para São Paulo, onde construí 90% da minha história.
A vitória no Cross em Portugal foi especial.
Em 1996 venci uma etapa do GP de Cross em Portugal e a premiação foi suficiente para meus pais realizarem o sonho de construir a casa deles na cidade. Foi uma realização muito grande para a minha família.
Como foi a transição de atleta para treinador?
A partir de 2000 comecei a ter muitas lesões e, em 2006, abandonei — estava cansado de correr com dor, um final traumático. Graduei-me em Educação Física, fiz pós em Fisiologia e Treinamento e trabalhei como treinador. Hoje atuo com cronometragem por chip e represento uma empresa espanhola de equipamentos. Também fundei o Instituto IserBem, com projetos de corrida para crianças, já que hoje os jovens não têm o acesso à corrida de rua que eu tive.
Que mensagem você deixa para quem está começando?
Correr é muito mágico e apaixonante. A mensagem é: persistência e perseverança. Tenha persistência para tentar caminhos diferentes e perseverança para esperar o resultado aparecer. Quem treina direitinho percebe, em dois ou três meses, uma diferença enorme na vida. A corrida muda as nossas vidas — a minha mudou muito, do menino da roça ao que me transformei. Somos parte de uma grande família apaixonada pela corrida.

