O que a corrida ensina sobre descanso, produtividade e uma carreira sustentável.
Durante muito tempo, na carreira, eu achei que precisava fazer mais. Mais horas. Mais entregas. Mais disponibilidade. Mais responsabilidade.
Os resultados vieram. Mas a conta também. O cansaço mental foi se acumulando até chegar a um quadro de burnout. Foi uma forma dura de perceber que produzir muito e produzir de forma sustentável são coisas diferentes.
Anos depois, a corrida me ensinaria a mesma lição, dessa vez através do corpo.
Quando o corpo mandou parar
Em um exame de rotina, meu CPK apareceu muito elevado. A orientação médica foi direta: um mês sem treinar. Nada de corrida. Nada de musculação.
Para alguém acostumado a treinar, parar completamente parecia um retrocesso.
Não foi. Foi quando comecei a compreender algo que hoje parece óbvio: recuperação não é o intervalo entre duas performances. Recuperação faz parte da performance.
Recuperação não é o intervalo entre duas performances. Ela faz parte da performance.
E talvez esse seja um dos grandes erros que cometemos tanto na corrida quanto na carreira.
A cultura do volume e a cultura do hustle
Na corrida, é fácil cair na armadilha de achar que mais quilômetros significam necessariamente mais evolução. No trabalho, fazemos algo parecido: mais reuniões, mais horas conectados, mais tarefas, mais mensagens respondidas.
Criamos duas culturas muito semelhantes: a cultura do volume no esporte e a cultura do hustle no trabalho.
Só que o corpo tem limites. A mente também.
Ninguém fica no pico 365 dias por ano
Um treinamento bem estruturado alterna estímulo e recuperação. Existem dias fortes, dias leves e períodos de redução de carga. Não se espera que um atleta esteja no pico de desempenho 365 dias por ano.
Por que esperamos isso de um profissional?
Talvez produtividade precise deixar de ser medida apenas pela quantidade de coisas que conseguimos colocar dentro de um dia.
Hoje penso de outra maneira. Há momentos para acelerar. Há momentos para sustentar. E há momentos para recuperar.
Como nos lembra Eclesiastes 3:1, “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu.”
Descansar estrategicamente não significa falta de ambição. Significa criar condições para continuar performando quando realmente importa.
Aprendi isso duas vezes: primeiro quando a mente pediu socorro. Depois quando o corpo mandou parar.
Na corrida, ninguém deveria fazer uma maratona inteira em ritmo de tiro. Por que ainda tentamos fazer isso com a carreira?
Leve para casa: seu medidor de carga
Toda sexta-feira, dê uma nota de 0 a 10 para os indicadores abaixo. O objetivo não é diagnosticar nada, mas perceber tendências antes que o excesso vire padrão.
- Energia ao acordar: de esgotado (0) a renovado (10).
- Qualidade do sono: de péssima (0) a excelente (10).
- Vontade de treinar: de nenhuma (0) a alta (10).
- Disposição para trabalhar: de nenhuma (0) a alta (10).
- Irritabilidade: de muito alta (0) a nenhuma (10).
- Capacidade de concentração: de péssima (0) a excelente (10).
Como mensurar
Não olhe apenas para uma nota. Olhe para a tendência. Se energia, sono, disposição e concentração estiverem caindo por duas ou três semanas consecutivas, enquanto a irritabilidade aumenta, talvez seja hora de rever sua carga de treino e de trabalho.
Performance sustentável não é saber apenas a hora de acelerar. É também perceber a hora de tirar o pé.