Correr sem Lesão

Dor boa ou dor ruim? Como o corredor separa uma da outra

Nem toda dor significa lesão. Mas também nem toda dor deve ser ignorada. O que separa uma da outra não é a intensidade, é o comportamento.

Por: Alexandre Rosa Edição 65 - setembro 2026
Dor boa ou dor ruim? Como o corredor separa uma da outra

Nem toda dor significa lesão. Mas também nem toda dor deve ser ignorada. O que separa uma da outra não é a intensidade, é o comportamento.

Quem pratica corrida, musculação ou qualquer outro esporte provavelmente já ouviu a frase “sem dor, sem ganho”. Porém, na fisioterapia esportiva, essa ideia precisa ser interpretada com cuidado.

Durante o exercício, é comum sentir cansaço, queimação ou um desconforto muscular leve e difuso. Geralmente, essas sensações estão relacionadas ao esforço e à adaptação do organismo ao treinamento. Podemos chamar, de forma simplificada, de dor boa.

Já uma dor forte, aguda, localizada, que altera o movimento ou piora progressivamente durante o exercício merece atenção. Ela pode indicar que determinada estrutura está recebendo uma carga maior do que consegue tolerar naquele momento.

Observe o comportamento, não a intensidade

Na prática, o que orienta a decisão não é o quanto dói, e sim como a dor se comporta antes, durante e depois. Se for leve, não modificar a sua técnica, não aumentar durante o exercício e desaparecer rapidamente depois, provavelmente representa uma resposta normal ao esforço.

Por outro lado, se você começa a mancar, mudar a passada, compensar movimentos ou precisa interromper a atividade, existe um sinal de alerta. O mesmo vale quando a dor permanece após o treino ou piora nas horas seguintes.

Resposta esperada ao esforço

  • Durante o treino: estabiliza ou até melhora conforme você aquece.
  • No movimento: você corre igual, sem compensar nada.
  • Localização: difusa, espalhada, difícil de apontar com o dedo.
  • Depois do treino: desaparece em pouco tempo.

Sinal de alerta

  • Durante o treino: aumenta progressivamente a cada quilômetro.
  • No movimento: você manca, muda a passada ou compensa.
  • Localização: pontual, com endereço, você aponta exatamente onde.
  • Depois do treino: permanece ou piora nas horas seguintes.

Nesses casos, a conduta raramente é parar tudo. Reduza ou modifique temporariamente o estímulo, sem necessariamente parar completamente. A fisioterapia pode avaliar força, mobilidade, controle motor e capacidade de suportar carga, ajudando a ajustar o treinamento e recuperar a função.

O mesmo tecido que hoje não tolera a carga pode tolerá-la em algumas semanas. O que muda é o preparo, não a dor.

Liberação miofascial e trigger points: qual é a diferença

Quando falamos em controle da dor, talvez um dos recursos mais utilizados hoje em dia pela fisioterapia seja a liberação miofascial. É uma estratégia bastante utilizada, especialmente entre corredores, praticantes de musculação e atletas que buscam melhorar a recuperação. Apesar de muitas vezes ser confundida com massagem ou com inibição de trigger points, essas técnicas podem ter objetivos diferentes.

A fáscia é uma rede de tecido conjuntivo que envolve e conecta músculos, tendões, nervos e outras estruturas. Após exercícios com maior carga, movimentos repetitivos ou períodos prolongados de treinamento, podem ocorrer alterações temporárias na sensibilidade, na mobilidade dos tecidos e na percepção de rigidez.

A liberação miofascial busca principalmente reduzir essa sensação de rigidez e desconforto. Pode ser realizada manualmente ou com instrumentos, como rolos e bolas. Seus efeitos não devem ser entendidos simplesmente como descolar a fáscia ou quebrar aderências. Eles parecem estar relacionados principalmente à modulação do sistema nervoso, à redução da percepção de dor, ao aumento temporário da tolerância ao movimento e a alterações na resposta mecânica dos tecidos.

Já os trigger points são regiões musculares mais sensíveis, capazes de reproduzir dor local ou, algumas vezes, dor em outras regiões. A inibição de trigger points é uma abordagem mais localizada, na qual o fisioterapeuta identifica um ponto hipersensível e utiliza pressão sustentada ou outra técnica para reduzir sua sensibilidade e melhorar o movimento.

Como deve ser feita

A liberação miofascial não precisa ser extremamente dolorosa para funcionar. Pressionar com muita força pode aumentar a sensibilidade e até prejudicar o treinamento posterior. O ideal é utilizar uma pressão tolerável, associada a movimentos lentos e controlados, observando a resposta do corpo. Com rolo ou bola, alguns minutos por região geralmente são suficientes. O objetivo é diminuir a sensação de rigidez e melhorar o conforto, e não machucar o músculo.

Na inibição de trigger points, a pressão também deve ser progressiva e controlada. Como o ponto pode ser bastante sensível, a técnica pode gerar mais desconforto do que a liberação miofascial. O fisioterapeuta deve confirmar se aquele ponto realmente está relacionado ao quadro, evitando simplesmente pressionar qualquer região dolorosa.

O que a liberação não faz

  • Não remove ácido lático. Depois da atividade física, a liberação pode ajudar temporariamente na percepção de dor, rigidez e desconforto, facilitando a movimentação, mas esse não é o mecanismo.
  • Não elimina magicamente a inflamação.
  • Não substitui o básico: sono, alimentação, hidratação e recuperação adequada continuam sendo a base.

Na prevenção de lesões, nenhuma dessas técnicas deve ser considerada isoladamente. Elas podem contribuir para conforto, mobilidade e tolerância ao movimento, mas a prevenção depende principalmente de progressão adequada da carga, força muscular, recuperação, sono, técnica e planejamento do treinamento.

Liberação miofascial e inibição de trigger points são ferramentas complementares. O mais importante é identificar por que determinado tecido está sobrecarregado e desenvolver progressivamente sua capacidade de suportar as demandas do esporte.

Alexandre Rosa

Alexandre Rosa

Fisioterapeuta (Time Runners)

Fisioterapeuta, Professor e Ultramaratonista 44x maratonas + 50k (45/50) Fisioterapia Esportiva e Ortopédica