Vinte e cinco anos de corrida de rua, 18 maratonas e os 86 quilômetros da Comrades. E quase quatro meses parada por um osso que estava quase partindo. Julia Sette conta como aprendeu que saber parar também faz parte do treino.
Com 25 anos de corrida de rua, Julia Sette sabe muito bem reconhecer os sinais do próprio corpo. Mas nem sempre foi assim. Em uma fase em que a performance tinha mais peso para a atleta, uma dor começou a interferir fora dos treinos. Foi quando Julia descobriu que estava próxima de sofrer uma fratura e parar foi inevitável. Foram quase quatro meses sem correr. Um tempo longe das pistas que trouxe um aprendizado importante: alguns dias de pausa podem evitar meses afastada do esporte.
Com 18 maratonas no currículo e os 86 quilômetros da Comrades concluídos este ano, para Julia, correr é uma forma de conhecer lugares, viver experiências e realizar sonhos. Nas redes sociais, onde compartilha boa parte dessa trajetória, também procura mostrar que a vida de um corredor amador não é feita apenas de provas, medalhas e bons treinos. Há espaço para descanso, dias ruins e mudanças de planos.
Em entrevista à Runners Brasil, Julia fala sobre a pausa forçada, a decisão de abrir mão de uma prova no exterior para preservar a saúde e como a busca por performance e a cobrança por resultados podem interferir de forma negativa na vida. A atleta do Rio de Janeiro também reforça a importância de manter uma relação saudável com o esporte e conta como a corrida ensinou que, em alguns momentos, saber parar também faz parte do treino.
O corpo sempre dá sinais
Você já escreveu que é difícil ter maturidade para fazer uma pausa e que você mesma já passou por isso mais de uma vez. Quando foi que você aprendeu, na prática, que descansar também faz parte do treino?
Depois de 25 anos correndo, não tem como, você acaba se conhecendo muito bem e sabe que uma lesão séria não vem do nada. O corpo sempre dá sinais e você aprende que ficar uns dias sem correr são bem melhores do que meses de molho.
Uma lesão séria não vem do nada. O corpo sempre dá sinais.
Naquela época, seu corpo já vinha dando sinais de que alguma coisa não estava bem? Por quanto tempo você precisou ficar sem correr?
Corredor quando foca em performance acaba ficando muito tolerante a dor, principalmente as mulheres por que somos muito resistentes. Quando percebi que a dor estava interferindo no meu dia a dia, no meu trabalho, vi que algo não estava certo. Descobri que meu osso estava quase partindo, um susto que me deixou quase 4 meses sem correr.
E antes de parar de vez, você tentou negociar consigo mesma? Aquele pensamento de corredor: “vou fazer só mais essa prova e depois eu paro”?
Com certeza, principalmente prova no exterior, mas acabei escutando pessoas experientes e cancelei a prova. O prejuízo financeiro não seria maior do que o físico.
O prejuízo financeiro não seria maior do que o físico.
Quase quatro meses sem correr
Para quem ama correr, talvez uma das coisas mais difíceis seja justamente não poder correr. Como você lidou com esse período?
Aproveitei para tirar das minhas pendências várias coisas. A gente não pode deixar a corrida ser a coisa mais importante da nossa vida, ela pode acabar virando um relacionamento tóxico. É a oportunidade de descobrir outros esportes, atividades e encontrar prazer em outras coisas na vida.
Você teve medo de perder condicionamento ou de não conseguir voltar correndo como antes?
Tive muito, principalmente na época que performance era uma coisa importante pra mim, mas conseguia manter o cárdio em dia e me cerquei de profissionais que não deixaram isso se tornar algo maior do que deveria ser. E que na verdade nem é.
Qual foi o maior período que você já precisou ficar longe da corrida? O que aquela pausa mudou na corredora que você é hoje?
4 meses. Com certeza, descobri que nada acontece por acaso e que pausas forçadas podem ser grandes presentes da vida.
Pausas forçadas podem ser grandes presentes da vida.
O dia de não correr
O que faz você entender que determinado dia é melhor não correr?
Uma dor que eu não reconheço ou que mexa na minha mecânica correndo. Descansar é um dos métodos de recuperação mais eficientes que existem.
Você faz questão de dizer: “eu não sou atleta profissional”. Por que é importante deixar isso claro para quem acompanha você?
Na verdade é mais para todos nós corredores que não somos profissionais entendermos que a corrida não pode ser o mesmo nível de cobrança ou peso que outras áreas mais importantes da nossa vida tem. Não é só sobre mim, mas muito mais sobre a comunidade.
De 18 maratonas aos 86 quilômetros da Comrades
Ao mesmo tempo, estamos falando de alguém que já correu 18 maratonas e encarou os 86 quilômetros da Comrades este ano. Quando a corrida deixou de ser apenas um esporte e passou a ocupar um espaço tão grande na sua vida?
Eu gosto de viver momentos e lugares especiais que só a corrida pode me proporcionar. Tanto para realizar sonhos e viver experiências diferentes como para trazer conteúdos e visões diferentes para a comunidade. Provas de longas distâncias proporcionam muito isso.
E o que 86 quilômetros de Comrades ensinaram para você?
A gente transcende na Comrades, tanto pelo treinamento quanto pelos quilômetros que vivemos naquela prova. Você pode ser quem você quiser correndo, mas precisa fazer isso feliz.
Você pode ser quem você quiser correndo, mas precisa fazer isso feliz.
Quando você larga para uma prova hoje, o que realmente importa para chegar ao final e pensar: “valeu a pena”?
Conseguir viver todos os quilômetros da melhor forma possível e chegar bem, feliz e saudável no final de todas elas.
Você corre provas no Brasil e pelo mundo. O que uma corrida precisa ter para se tornar inesquecível para você?
Corredores apaixonados de verdade por esse esporte.
Amar o esporte de uma maneira saudável
Parece que no mundo da corrida a gente precisa estar sempre buscando alguma coisa: correr mais rápido, aumentar a distância, bater RP… Que conselho você dá para quem está entrando nessa busca e começa a transformar a corrida em cobrança?
Buscar metas extraordinárias é incrível, eu sei bem, mas se você não estiver fazendo isso de uma forma saudável, por você, feliz no processo, sem afetar a sua vida fora da corrida e as pessoas que estão nela, vale reavaliar. Corrida é igual a qualquer outra relação, se você não cuidar e proteger, ela pode acabar te machucando e não sendo mais saudável.
Você já falou também sobre “amar o esporte da maneira mais saudável possível”. Depois de tudo o que já viveu na corrida, o que é amar esse esporte de uma maneira saudável?
Respeitando seus treinos, sua vida pessoal, seus problemas pessoais, não pular etapas, não procurar formas desonestas para evoluir, ser honesto consigo mesmo. Correr principalmente porque gosta e não para mostrar e querer atenção de ninguém.
Nas redes sociais, normalmente é muito mais fácil mostrar a medalha, a chegada, a prova incrível. Mas tem lesão, tem treino ruim e tem dia em que simplesmente não dá. Mostrar esse lado também é uma forma de incentivar quem acompanha você?
Com certeza e isso não precisa ser um drama. Tem muitos dias que você não vai entregar seu treino e está tudo bem. Temos uma vida de verdade acontecendo, prazos, boletos, família, hormônios. A corrida foi feita para ajudar a nos curar, nos fazer mais feliz e não machucar.