Quando o corredor senta na minha frente com essa hipótese, ele já perdeu meses. O problema nunca foi a falta de sinais. É que cada um deles, sozinho, tinha uma explicação boa.
Existe um padrão que se repete no consultório. O corredor chega dizendo que acha que está em overtraining, mas não é isso que ele veio investigar. Ele veio porque o ritmo caiu, a prova não saiu, o sono desandou ou apareceu uma lesão que não fecha.
O overtraining é a hipótese que ele mesmo levantou depois de meses tentando resolver o problema com mais treino. E é exatamente aí que mora a dificuldade desse diagnóstico: ele não chega cedo. Ele chega quando o corredor já esgotou todas as outras explicações.
Três nomes para o mesmo caminho
Antes dos casos, precisamos falar a mesma língua. O consenso conjunto do Colégio Europeu de Ciências do Esporte e do American College of Sports Medicine descreve um contínuo, não um interruptor.
- Overreaching funcional. Queda transitória de desempenho depois de um bloco pesado, que se resolve com dias a duas semanas de recuperação. É desejado, é planejado, é o que faz o treino funcionar.
- Overreaching não funcional. A queda persiste por semanas a meses, com sintomas somados (sono ruim, humor alterado, infecções de repetição) e recuperação incompleta mesmo com redução de carga.
- Síndrome de overtraining. O estágio final: perda de desempenho por meses, alteração de múltiplos sistemas e nenhuma outra doença que explique o quadro.
Entre o primeiro e o terceiro estágio não existe exame que marque a fronteira. Existe tempo. E tempo é o que o corredor mais gasta antes de procurar ajuda.
Caso 1: a maratonista que só precisava de mais volume
38 anos, quatro maratonas, melhor tempo 3h28. Buscando o sub 3h20, subiu o volume de 60 para 95 km semanais em oito semanas, mantendo dois treinos de qualidade. Nas primeiras semanas, o ritmo dos longos caiu de 10 a 15 s/km, e ela atribuiu ao calor. A frequência cardíaca de repouso subiu de 46 para 54 bpm, e ela atribuiu ao relógio. Passou a acordar às 4h sem conseguir voltar a dormir, e atribuiu à ansiedade pré-prova. Duas amigdalites em seis semanas, atribuídas ao ar-condicionado. O ciclo menstrual espaçou para 45 dias e ela nem registrou.
Chegou ao consultório depois de abandonar a prova-alvo no km 28 com pernas mortas. Exames: ferritina 11 ng/mL, hemoglobina 11,8 g/dL, cortisol matinal no limite inferior, TSH normal, CK discretamente elevada.
Diagnóstico: overreaching não funcional com deficiência de ferro e baixa disponibilidade energética (RED-S) sobrepostos. Quatro meses de treino desperdiçados e uma prova perdida por sinais que já estavam todos presentes na quarta semana.
Caso 2: o corredor de 50 anos que trocou dor por cansaço
Amador competitivo, 10 km em 41 minutos, seis treinos por semana havia três anos sem nenhuma semana de descarga. O motivo da consulta era uma tendinopatia de Aquiles à direita com quatro meses de evolução. Na anamnese, contou que há uns oito meses corre 20 s/km mais lento no mesmo esforço, que acorda cansado apesar de dormir sete horas, que a libido sumiu e que anda irritado com todo mundo. Tinha normalizado tudo como idade.
Testosterona total 245 ng/dL, abaixo da referência para a faixa etária. Cortisol matinal normal, o que não descarta nada. A variabilidade da frequência cardíaca noturna estava em queda progressiva havia meses no próprio relógio, que ele nunca tinha aberto.
A tendinopatia não era o problema: era o primeiro sintoma que doeu o suficiente para trazê-lo.
Diagnóstico: síndrome de overtraining com hipogonadismo funcional. A recuperação levou cinco meses. O tendão fechou em oito semanas. O resto, não.
Caso 3: o iniciante em streak
29 anos, corria havia 14 meses, 200 dias consecutivos sem folga, com o aplicativo comemorando cada um deles. Nunca correu mais de 12 km. Chegou com fratura por estresse do segundo metatarso e a pergunta “posso manter a corrida leve para não perder a sequência?”. Queixas associadas: três meses de sono fragmentado e dois episódios de gripe que duraram mais de duas semanas.
Este não é um caso de síndrome de overtraining, que exige queda de desempenho documentada. É algo anterior e mais comum: a ausência de folga, mesmo com volume baixo, já tinha produzido falha tecidual e um padrão de recuperação insuficiente.
Ele não estava em overtraining. Estava construindo um.
O que os exames dizem, e o que não dizem
Não existe biomarcador da síndrome de overtraining. Essa é a frase que mais frustra o corredor, que chega esperando o exame que confirma. O papel do laboratório é duplo: excluir doenças que imitam o quadro e identificar deficiências que o agravam.
O painel mínimo que uso: hemograma, ferritina e saturação de transferrina, TSH e T4 livre, vitamina D, CK, proteína C reativa ultrassensível, glicemia e, nos homens, testosterona total e livre. Nas mulheres, a história menstrual vale mais do que qualquer dosagem hormonal isolada. Cortisol matinal e testosterona são úteis quando estão alterados. Normais, não descartam nada. Eletrocardiograma quando há palpitação ou frequência de repouso que não se explica. Sorologias para infecções persistentes quando a fadiga não acompanha a carga.
O dado mais informativo, porém, não é laboratorial: é a curva de desempenho em um teste padronizado, seja teste de esforço com lactato, seja uma sessão de referência repetida, e o tempo que o corredor leva para se recuperar dela. Na síndrome instalada, a segunda tentativa no mesmo dia mostra o colapso que a primeira escondeu. Do relógio, aproveite frequência de repouso e variabilidade da frequência cardíaca pela tendência de duas a três semanas, nunca pelo número do dia.
Por que chegam tarde
Porque cada sinal, isolado, tem uma explicação boa. Calor, relógio ruim, estresse do trabalho, idade, ar-condicionado.
O corredor é excelente em explicar sintomas. O que ele não faz é somar.
O segundo motivo é cultural: nesse esporte, cansaço é conquista. Ninguém posta “acordei destruído e não treinei” com o orgulho de quem posta um longo de 30 km. O quadro se instala em um ambiente que o recompensa, e o próprio treino, nas fases iniciais, ainda alivia o mal-estar por algumas horas. Por isso o corredor sente que parar piora. Não piora. Revela.
O que separa uma semana de cinco meses
Overreaching funcional se resolve com uma semana de redução real de carga, e o corredor volta melhor do que estava. Overreaching não funcional pede de três a oito semanas, com investigação e correção do que estiver deficiente. Síndrome de overtraining se conta em meses, às vezes em uma temporada inteira.
O que separou o primeiro cenário do terceiro, em quase todos os casos que atendi, não foi um exame. Foi a decisão de continuar. Se você leu até aqui somando sinais, marque a consulta antes de decidir sozinho quanto descansar.
Sinais que pedem consulta: dois ou mais, por mais de duas semanas
- Queda de desempenho no mesmo esforço percebido, por mais de duas semanas, sem doença aguda que explique.
- Frequência cardíaca de repouso persistentemente 5 bpm ou mais acima da sua média, ou variabilidade da FC em queda sustentada por 10 a 14 dias.
- Sono alterado: dificuldade para iniciar ou manter, despertar precoce, ou acordar cansado apesar de horas suficientes.
- Duas ou mais infecções de vias aéreas em oito semanas, ou uma que dure mais de duas.
- Irritabilidade, apatia ou perda de motivação para treinar que você mesmo estranha.
- Perda de libido e, nas mulheres, ciclo menstrual espaçado, irregular ou ausente.
- Perda de peso não intencional ou ausência de fome depois de treinos longos.
- Dor musculoesquelética que muda de lugar ou não melhora com o descanso habitual.
- Lesão de sobrecarga, como tendinopatia ou fratura por estresse, em quem não tira dia de folga.
- A pergunta “posso treinar leve mesmo assim?” que você já respondeu com sim mais de duas vezes nesta semana.
Referências
MEEUSEN, R.; DUCLOS, M.; FOSTER, C. et al. Prevention, diagnosis, and treatment of the overtraining syndrome: joint consensus statement of the European College of Sport Science and the American College of Sports Medicine. Med Sci Sports Exerc, 2013;45(1):186-205.
CADEGIANI, F. A.; KATER, C. E. Novel insights of overtraining syndrome discovered from the EROS study. BMJ Open Sport Exerc Med, 2019;5(1):e000542.
MOUNTJOY, M.; ACKERMAN, K. E.; BAILEY, D. M. et al. 2023 International Olympic Committee’s consensus statement on Relative Energy Deficiency in Sport (REDs). Br J Sports Med, 2023;57(17):1073-1097.