Saúde Bucal na Corrida

Boca, respiração e sono: o elo que o corredor ignora

Bruxismo e apneia interferem na qualidade do sono. E o sono é onde o corredor recupera. Um elo que quase nunca entra na conversa sobre performance.

Por: Dr. Victor Wolwacz Edição 65 - setembro 2026
Boca, respiração e sono: o elo que o corredor ignora

Bruxismo e apneia interferem na qualidade do sono. E o sono é onde o corredor recupera. Um elo que quase nunca entra na conversa sobre performance.

O corredor evolui dormindo. Essa premissa deveria ser considerada no planejamento dos treinos e das provas, porque sono, recuperação e descanso são componentes do treinamento e da performance do atleta. Isso quase todo mundo já sabe. Mas e o bruxismo, a apneia e a performance? Qual é a relação disso com a corrida?

O bruxismo é uma condição bastante prevalente, um hábito parafuncional. Ou seja, ele não faz parte dos hábitos fisiológicos como a fala, a mastigação e a deglutição. Por isso excede as funções cotidianas e pode causar estresse, ou estar associado a outros fatores estressores, na região de cabeça e pescoço.

De onde ele vem

A origem é multifatorial. Pode estar relacionada a desordens na oclusão dos dentes, a mordida, à ansiedade, à depressão, ao estilo de vida, a altos níveis de estresse físico e emocional e também ao uso de medicamentos e substâncias com poder de excitação do sistema nervoso central, como a cafeína em doses diárias acima do recomendado, cerca de 400 mg por dia.

O bruxismo independe da idade e pode ocorrer desde a infância. À medida que o ritmo de vida se torna mais intenso, agitado e extenuante, os fatores predisponentes se intensificam e a chance de que ocorra aumenta. Por estar ligado a fatores emocionais e psicossociais, ele pode ter caráter sazonal, com grau de severidade modulado de acordo com o momento de vida.

Nem sempre o bruxismo se manifesta da forma mais evidente, com o bater dos dentes. Ele também ocorre de modo silencioso e com poucos sintomas.

Sinais e sintomas do bruxismo

  • Dor de cabeça, face ou pescoço ao acordar
  • Sensação de cansaço
  • Dor muscular na mandíbula, com tensão
  • Dor à palpação dos músculos laterais da face
  • Acordar com sensação de apertamento e desconforto na mandíbula
  • Relato de quem divide o quarto sobre o barulho de ranger os dentes à noite
  • Desgaste dentário excessivo e anormal para a faixa etária
  • Ranger os dentes durante o dia ou durante a noite
  • Apertar muito os dentes em momentos específicos do dia
  • Fraturas dentárias atípicas e frequentes
  • Dor na articulação temporomandibular
  • Limitação da abertura da boca

O que alimenta o problema

É importante atentar para a presença de outros hábitos que podem estimular e agravar o quadro. Apertar os dentes durante a prática esportiva, por exemplo, é bastante comum entre praticantes de musculação, e também aparece em atividades que exigem concentração.

  • Mascar chiclete
  • Roer unhas, a onicofagia
  • Apertar os dentes durante a prática de esportes
  • Consumo excessivo de café, chás e chocolates
  • Refrigerantes à base de cola, chimarrão e energéticos
  • Consumo excessivo de bebidas alcoólicas
  • Tabagismo

O que o dentista procura

Para identificar as manifestações bucais do bruxismo, o cirurgião-dentista deve realizar uma entrevista clínica e um exame detalhado da musculatura orofacial, das superfícies dentárias, do periodonto, das bochechas e da língua, além de solicitar exames de imagem quando necessário.

O bruxismo pode provocar fraturas em dentes, restaurações e próteses, desgaste dentário, complicações em implantes, dores musculares, dores de cabeça e alterações nas articulações temporomandibulares. Por isso o diagnóstico é essencial e deve ser feito o mais cedo possível, porque, além dos problemas odontológicos, o quadro também está associado à redução da qualidade do sono.

O que a eletromiografia mostrou

Um estudo sobre bruxismo e sono, ao utilizar exames eletromiográficos como instrumento de avaliação, constatou que a atividade muscular rítmica ocorreu em aproximadamente 60% das pessoas sem bruxismo. Nos pacientes com bruxismo, porém, essa atividade foi três vezes mais intensa, com 70% mais contrações musculares.

Esse aumento da atividade muscular durante o bruxismo noturno pode provocar microdespertares, o que sugere que o problema seja uma resposta fisiológica a esses despertares ocorridos durante o sono. A Classificação Internacional das Desordens do Sono considera que o bruxismo do sono está associado ao despertar repentino.

O que a privação de sono cobra do atleta

De acordo com Tolentino et al., 2015 e Vasileios et al., 2020, o sono é uma necessidade fisiológica que influencia diretamente o nosso organismo, e a sua privação pode causar irritabilidade, regeneração muscular mais lenta, reparação tecidual diminuída, estresse e alteração de hormônios como o cortisol, a testosterona e o hormônio do crescimento.

Pesquisas apontam que o aumento na duração e na qualidade do sono favorece uma melhora no tempo de reação, na precisão e no desempenho de resistência dos atletas. Menor duração de sono e má qualidade estão presentes em atletas profissionais, principalmente em períodos de treinamento antes da competição, o que leva à recomendação de implementar estratégias que aumentem a duração e a qualidade do sono e mantenham a regularidade do ciclo sono e vigília nesses indivíduos (Watson, 2017; Narciso et al., 2020).

Analisar a qualidade do sono dos atletas é essencial para compreender a sua influência no desempenho físico, no nível de estresse e na diminuição do risco de lesões.

E a apneia?

Alguns estudos têm procurado verificar a possível correlação entre apneia e bruxismo. De acordo com uma revisão bibliográfica recente, a associação entre apneia obstrutiva do sono e bruxismo do sono varia conforme a gravidade da apneia. A apneia obstrutiva do sono leve a moderada está relacionada ao bruxismo do sono em pacientes com maior risco de apneia obstrutiva.

A relação entre os dois é complexa e ainda não está completamente compreendida. Mas parece claro que ambos estão associados a distúrbios do sono e podem se agravar mutuamente, afetando negativamente a qualidade de vida dos indivíduos afetados. Por isso é essencial que a avaliação clínica de pacientes com apneia inclua a avaliação do bruxismo, e vice-versa, para que a abordagem diagnóstica e terapêutica seja adequada e eficaz.

Bruxismo: por que tratar

Pelas razões que desenvolvemos até aqui e, especialmente, se pensarmos no impacto da qualidade do sono na vida dos atletas, seja o profissional, seja o amador, seja o praticante que alia a atividade esportiva à rotina diária. A qualidade do sono é uma variável importante, e uma noite devidamente dormida está diretamente relacionada ao ajuste do ciclo circadiano, à regulação hormonal, ao desempenho cognitivo, ao reparo muscular e tecidual e, consequentemente, ao desempenho físico. Nesse sentido, o controle do bruxismo é de extrema importância tanto para atletas de corrida e endurance quanto para atletas de treinamento de força, musculação e crossfit.

A abordagem terapêutica compreende o manejo farmacológico dos sintomas, a retirada dos hábitos parafuncionais ou pelo menos o controle deles, o controle da hiperatividade dos músculos elevadores da mandíbula por via medicamentosa, o uso de placas de proteção oclusal, a aplicação de toxina botulínica na musculatura envolvida, a fisioterapia e a reabilitação dos dentes afetados. A modalidade terapêutica pode ser isolada ou associada, e a indicação do tratamento é baseada na gravidade do caso, a fim de evitar o sobretratamento.

Sobre as placas de bruxismo, vale ressaltar que são dispositivos de uso individual e personalizado, e devem ser confeccionadas com orientação profissional do cirurgião-dentista. Vale lembrar também que outras especialidades, como otorrinolaringologia e especialistas em distúrbios do sono, devem fazer parte do diagnóstico na presença de apneia.

Vale procurar avaliação se

  • Você acorda com dor de cabeça ou com a mandíbula tensa
  • Alguém relata que você range os dentes à noite
  • Há desgaste dentário fora do esperado para a sua idade
  • Você ronca alto, com pausas respiratórias percebidas
  • O sono não é reparador, mesmo com horas suficientes

Portanto, esteja atento aos sinais, comece por uma autoavaliação sobre os sintomas e agende uma avaliação com o seu dentista.

O diagnóstico precoce intercepta a progressão dos sintomas e simplifica o tratamento.

O diagnóstico precoce evita o desgaste dentário, simplifica a abordagem terapêutica, evita a automedicação e o excesso de tratamentos, e impacta de forma positiva a qualidade de vida, a rotina diária e a performance esportiva. Boas corridas.

Dr. Victor Wolwacz

Dr. Victor Wolwacz

Dentista (Time Runners)

Dentista