Ele descobriu a corrida por acaso, quando queria emagrecer para usar sua prancha de surf, há mais ou menos 20 anos.
João Pedro Forlani é pai da Eva e da Joana, casado com a Gabi, engenheiro de formação, apaixonado por comunicação e fundador da Forcell (empresa de suplementação esportiva).
Mora em Vitória/ES e nasceu no interior de SP, vivendo boas histórias, aprendizados e reflexões com a corrida.
”A corrida me habilita a cuidar de quem eu amo.” — João Pedro Forlani
João é um homem comum que faz da corrida um estilo de vida, não apenas uma obrigação na agenda.
O Corpo Pediu Socorro
RB: O que te levou a começar na corrida?
João: Eu estava numa reunião de trabalho e meu ouvido direito tampou do nada. À noite veio uma dor de cabeça forte, fui parar no hospital: hipertensão grave.
Tive um derrame no ouvido interno, perdi parte da audição de uma frequência. Era jovem (22 anos) e o médico falou que eu precisava fazer esporte urgente.
RB: Como era sua relação com o esporte, antes desse episódio de hipertensão grave?
João: Comecei pelo stand-up paddle. Depois comprei uma prancha de surf maior e, quando entrei na água, percebi que estava pesado demais para ela.
Aí comecei a correr para emagrecer e conseguir surfar. A corrida foi, literalmente, um meio para outras coisas.
Nascimento das Filhas Gerou um Novo Corredor
”Por muito tempo eu corria só porque sim, sem propósito nenhum.” — João Pedro Forlani
Foi depois que as filhas nasceram que a ideia que hoje define sua relação com a corrida ganhou forma. Não veio de um estalo, mas de anos de constância, de repetição.
RB: De onde vem a frase que a corrida te “habilita a cuidar de quem você ama”?
João: Percebi que, nos dias em que eu não corria, sentia falta, quase uma abstinência. E que, quando corria, cuidava melhor das pessoas que amo, ficava mais presente.
A frase nasceu disso, algo real.
RB: Como a corrida impacta hoje a rotina da sua família?
João: Em casa, a prioridade de horário de treino é da minha esposa Gabi, porque ela tem menos flexibilidade, por ser médica.
Meus longões são sempre nas segundas-feiras, nunca no fim de semana, porque meu foco no fim de semana é ficar com a família.
Mudança de Duas Décadas: Da Engenharia à Forcell
RB: Como foi sair da engenharia para empreender no meio da corrida, com a Forcell?
João: É romântico demais falar que teve uma “virada”, mas não teve.
Foi uma transição de 20 anos. Eu tinha uma dor de cabeça com os géis que existiam, comecei a fazer o meu próprio gel de carboidrato, usava e oferecia aos amigos, que experimentavam e gostavam.
Quando aquilo ganhou corpo de projeto viável, desenhei tudo com dados, coloquei em planilha, organizei com a família para termos uma janela de um ano para colocar de pé.
Teve atraso, como todo projeto, mas está dando certo.
É interessante perceber que a visão da corrida do João reflete na sua empresa. Um exemplo é a linha Forcell essencial carbo, o gel de carboidrato desenvolvido por corredores e para corredores, trazendo a “simplicidade como ápice da sofisticação”.
Hoje a empresa possui outros produtos, mas o princípio de tudo é o gel de carbo, que oferece sabores marcantes (manga, framboesa, maracujá, coco) usando a tecnologia para repor o que o corpo precisa durante a corrida.
João cresceu numa cidade pequena do interior de São Paulo, em uma época em que a informação era rara, por isso aprendeu cedo a conviver com o tédio. Hoje ele vê nisso uma vantagem para desfrutar das experiências da vida.
Religar, Não Desligar
RB: As pessoas costumam dizer que correm para “desligar”. O que acha disso?
João: O termo certo é religar.
Depois da industrialização, o trabalho virou quase só mental, você não acorda mais para usar o corpo, acorda para sentar. Nós trabalhamos quase o tempo todo sentados.
Isso cria um descompasso entre corpo e mente. A corrida é um encontro brutal com você mesmo: você não foge, não desliga, reconecta o que se perdeu.
O tal “runner’s high” é exatamente essa sensação: “eu sou eu, estou completo.”
Correr o Mundo sem Sair de Casa
A afinidade com a escrita vem de longe, pois sua mãe tinha a única banca de jornal da cidade no interior de São Paulo.
Foi durante um MBA, escrevendo artigos que usavam a corrida como exemplo, que ele começou a publicar no LinkedIn, o gérmen do que viraria seu livro, “Quando Eu Corro”.
”Se ler é viajar sem sair de casa, ler sobre corrida é correr o mundo sem sair de casa.” — João Pedro Forlani
RB: Como nasceu o livro?
João: Já queria fazer um livro desde 2016, mas era jovem demais, faltava repertório. Depois que minha segunda filha nasceu, liguei para um amigo jornalista e desenhamos um sumário do livro. Aí foi o primeiro passo.
Foi bem planejado: reuniões mensais, capítulos saíram, outros nasceram, e a Gabi (esposa) fez a direção técnica final dos capítulos, para ficar mais fluido e tirar “cacoetes” de corredor.
”Quando eu corro” não é um livro técnico sobre corrida, é para quem gosta da vida: uma leitura introspectiva, às vezes poética, para quem busca novas perspectivas.
João é um cara que teve a vida transformada por conta do esporte, principalmente pela corrida, a ponto de mudar de profissão e, hoje, estar diariamente envolvido com o universo running.