Q&A

Rafaela Arlotta

Por: Sophia Vargas Edição 1 - maio 2021
Rafaela Arlotta

”Eu queria ter mais do que ser.”

Rafaela Arlotta (35) é publicitária, profissão a que se dedicou por muitos anos, e olhou mais para seus projetos futuros do que para si mesma. Em 2013, a atual corredora engravidou de sua filha Mel (7) e chegou a pesar 84 kg. Mas, com o nascimento de sua filha, Rafaela buscou mudar seu estilo de vida para servir de inspiração para sua menina. Foi por meio da corrida que ela encontrou a motivação que precisava, e passou a pesar 50 kg. Sua história de superação rendeu a Rafaela 48 mil seguidores nas redes sociais; tornou-se maratonista e embaixadora da Maratona do Rio.

Por Sophia Vargas.

Nas suas redes sociais você fala bastante sobre o seu período pós-parto, que foi quando você percebeu que precisava mudar seu estilo de vida. Mas quem era a Rafaela antes de engravidar?

Eu acho que a minha vida inteira eu lutei com esse lance da estética e de querer me encaixar num padrão. Eu nunca fui uma pessoa, esteticamente, provida de magreza, então lutei sempre com a obesidade. Então, fazia grandes ciclos, milhões de dietas, milhões de coisas, e a minha relação com a alimentação saudável e com a atividade física era única e exclusivamente para emagrecer; não era uma relação muito saudável entre a “gente”, a “gente” não era feliz junto. Eu vivia esse eterno ciclo, e para me afirmar como mulher eu enxerguei no trabalho uma possibilidade de ser uma referência. Desde que eu entrei na faculdade, eu trabalhava muito e, desde muito cedo, eu alcancei um cargo de pessoas mais experientes (…), então vivia produzindo, fazendo mil coisas, e eu deixava de olhar para mim. Eu queria ter mais do que ser. Nesse momento, a comida passou a ser minha grande parceira, minha confidente. Quando eu engravidei, eu passei a me sentir livre para não construir mais um corpo magro; então, eu me permiti comer tudo o que eu podia, não queria saber de alimentação saudável. Então, até a gravidez, foi essa Rafa que eu trouxe pro pós-parto.

Quando você começou sua rotina fitness, houve alguma resistência ou recaídas durante esse período de transição?

Não, na verdade foi uma coisa muito natural da mudança que tive na minha cabeça, na minha mentalidade. Eu queria uma mudança tão profunda e tive muita paciência com esse processo. Era um processo em que eu realmente precisava aprender a comer, reaprender a praticar uma atividade, encontrar prazer em uma atividade, encontrar prazer em uma alimentação saudável. Então, foi uma coisa tão devagarinho que eu percebi que não tinha volta. Ao longo desse processo, eu fui descobrindo o que funciona e o que não funciona. Eu nunca mais vou voltar a ser aquela Rafa que só enxergava o externo; o que vale muito mais para mim hoje é o interno.

O que você acha mais complicado para manter a rotina dos treinos?

Eu acho que o maior desafio disso tudo, no começo, foi entender essa rotina nova. Eu fui muito disciplinada no começo e muito paciente, e minha grande barreira talvez fosse encaixar isso dentro da rotina, que era uma rotina de recém-mãe — com quarenta dias eu já tinha voltado a trabalhar. Eu acho que o desafio foi tentar equilibrar todos os meus lados: lado mãe, lado empresária, lado esposa e o lado da mulher que queria se transformar.

Você procura sempre ser a inspiração para sua filha, e quem te acompanha sabe que ela está presente em suas rotinas de treino. Como ela se sente em relação a isso? Você a incentiva dando sempre um empurrãozinho ou ela parte por vontade própria?

O que eu falo para todo mundo que está vivendo um processo de mudança é: nunca tente doutrinar alguém. Eu acho que o exemplo “arrasta” as pessoas, então eu preferi que ela enxergasse a minha alegria ao ir treinar e voltar de um treino. Queria que ela enxergasse as linhas de chegada, que ela me visse em provas, encontrasse-me com meus amigos depois de um treino rindo e brincando, visse que aquilo é uma coisa divertidíssima. Eu queria fazer ela ter uma relação legal com a atividade física, seja ela qual fosse. Eu nunca falei que ela precisava correr, mas naturalmente ela sentiu que queria participar de alguma prova. Eu quero que ela se movimente, eu explico para ela a necessidade disso. A partir do momento que ela teve a consciência de quem sou eu e do processo que eu vivi, eu deixei claro para ela o que poderia acontecer por conta dos nossos hábitos. Eu fico muito feliz com as escolhas que ela tem; ela tem um entendimento muito bacana e nunca foi forçada.

O que mais gosta na corrida?

Eu entendo a corrida como uma conversa, é uma conversa com a gente. E eu acho que isso é o mais bacana: a gente sai da corrida se conhecendo muito mais, é uma sessão de terapia com a gente mesmo. A gente se convence a ir além, a fazer mais pela gente, pela corrida; enfim, acho que é essa troca, essa conversa.

Qual sua prova alvo?

Esse ano eu quero fazer mais uma maratona; a princípio vai ser a Maratona do Rio, em outubro. Mas, se não acontecer, eu vou fazer por mim mesma: a minha filha faz uma medalha para mim e está tudo certo [risadas].

Qual a prova que mais gostou de correr?

A minha primeira Maratona do Rio (2018). A minha ficha demorou muito para cair; eu acho que era uma coisa tão impensável ser maratonista que foi muito marcante.

Já teve alguma lesão grave?

Tive. No começo do processo todo, quando eu comecei a ganhar volume, lá em 2015, eu tive uma lesão que foi mais chatinha. Acho que levou uns dois/três meses para curar; foi na banda iliotibial.

Quantas vezes você treina por semana?

Corrida eu faço quatro vezes na semana e musculação de duas a três vezes por semana, depende da dinâmica da corrida; e descanso domingo, quando não tem prova.

Existe alguma coisa que pode te fazer parar ou dar um tempo de correr?

Eu acho que, se eu engravidasse de novo, talvez na hora de parir eu daria uma pausa [risadas]. Eu ia correr até o último minuto que me deixassem correr. Mas, por questões da vida, se eu tivesse que parar de correr, eu pararia. Mas eu quero envelhecer correndo, quero ser aquela velhinha cruzando a linha de chegada e todo mundo achando que eu tenho 40 anos [risadas].

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