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Quando a corrida vira encontro: a força das conexões no bem-estar

Por: Carô Queiroz Edição 50 - junho 2025
Quando a corrida vira encontro: a força das conexões no bem-estar

Seja pelo amor ao esporte e seus benefícios à saúde física e mental, seja para seguir o hype do momento, é fato que a corrida de rua vive um crescimento exponencial. Para se ter uma ideia, um levantamento conduzido pela Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor (ABRACEO), com base em dados fornecidos pela Confederação Brasileira de Atletismo e pelas federações estaduais, apontou que, de 2023 para 2024, houve um crescimento de 29% no número de corridas de rua realizadas no país. E, segundo o relatório anual da plataforma Strava, a adesão a clubes de corrida no Brasil cresceu 109% em 2024.

Entre os muitos motivadores para o início da prática, a conexão com outras pessoas está entre o que move a escolha de muitas pessoas pelo esporte e por um grupo de corrida, o que propicia não apenas a orientação técnica necessária para a prática, mas também uma comunidade com interesses em comum, uma oportunidade para conhecer pessoas, fazer amigos e ter companhia nos treinos.

Essa socialização, porém, vai além da companhia: impacta diretamente aspectos psicológicos como autoestima, senso de autoeficácia, pertencimento e aceitação. Esses efeitos, por si só, tornam-se poderosos motivadores individuais.

Mas há ainda um bom número de evidências científicas mostrando que o apoio social está fortemente ligado à maior adesão e permanência na prática de exercícios físicos e até mesmo a um melhor desempenho atlético. Segundo a psicóloga americana Barbara Fredrickson, uma das pioneiras no estudo das emoções positivas, momentos breves de conexão, como um sorriso compartilhado durante uma corrida ou uma palavra de incentivo de um colega, têm o poder de expandir nossa mente e fortalecer nosso bem-estar ao longo do tempo.

Frequentemente, nós, corredores de rua, vivemos ou presenciamos cenas em corridas oficiais em que pessoas desconhecidas, ao perceberem nosso esforço, nos dizem: “vamos lá, você consegue!”. É gostoso ouvir isso, não é? Dá um gás, mesmo que momentâneo. Em grupos de corrida, esses micro-momentos se acumulam, criando laços de pertencimento e promovendo saúde emocional duradoura.

Martin Seligman, psicólogo criador do conceito de psicologia positiva, afirma que “os seres humanos são criaturas profundamente sociais” e que relações significativas são indispensáveis para o florescimento psicológico. Construir relações positivas é mais do que ter amigos. É sentir-se apoiado, valorizado e conectado. A palavra de incentivo de um estranho, o companheirismo do grupo de treino ou o simples gesto de seguir junto já nos coloca no caminho do florescimento.

Relações humanas saudáveis amortecem o impacto do estresse, aumentam a resiliência e intensificam experiências de alegria. Essas conexões sociais também contribuem para outros pilares do bem-estar, como emoções positivas, engajamento e motivação para a realização de objetivos.

“Outras pessoas são o melhor antídoto para os momentos difíceis da vida, e o mais confiável reforço para os bons.” (Martin Seligman)

Grupos de corrida, nesse contexto, funcionam como verdadeiras redes de apoio emocional e social. Não se trata apenas de encontrar pessoas para treinar, mas de fazer parte de algo maior: uma comunidade com valores compartilhados, metas em comum e incentivo mútuo. O senso de pertencimento que emerge nesses espaços contribui diretamente para a construção de uma identidade coletiva e também pessoal.

Essa vivência compartilhada de esforço, superação e celebração, seja nos treinos, nas provas ou até nos encontros pós-corrida, reforça vínculos que ultrapassam o esporte. E é justamente esse sentimento de pertencer a algo que atua como fator protetivo para a saúde mental. Pessoas que sentem que pertencem a um grupo estão menos suscetíveis à solidão, à ansiedade e à depressão, além de apresentarem maior engajamento em hábitos saudáveis.

Correr em grupo, portanto, é mais do que uma estratégia de performance. É uma escolha que alimenta o bem-estar emocional, fortalece a autoestima e cria redes que sustentam, literal e simbolicamente, cada passo dado.

Em um mundo marcado por ritmos acelerados e relações muitas vezes superficiais, encontrar um grupo com quem dividir a jornada, os quilômetros e as conquistas torna-se um antídoto potente contra o isolamento. Grupos de corrida são espaços de saúde mental em movimento, onde o cuidado, o afeto e o pertencimento correm lado a lado.

Carô Queiroz

Carô Queiroz

Psicóloga (Time Runners)

Carô Queiroz é gaúcha, corredora amadora desde 2019 e meia maratonista. É Psicóloga pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG), com expertise nas áreas de orientação de carreira e atendimento clínico. Ajuda profissionais a construírem trajetórias de carreira mais estratégicas e com sentido, além de líderes a trabalharem carreira e performance em suas equipes. Produz conteúdos sobre o assunto nas redes sociais, com o objetivo de desenvolver maior protagonismo de carreira no público que a acompanha e educar sobre como alcançamos maior saúde na nossa relação com o trabalho. É membro da Associação Brasileira de Orientação Profissional e de Carreira (ABRAOPC) e acredita que pensar a carreira é uma questão de saúde mental.